João Paulo II e a Vida Consagrada

1. Muitas vezes nestes 25 anos de pontificado João Paulo II se manifestou a respeito da vida consagrada. Falou às mais diversas Ordens, Congregações, Institutos, sobretudo, por ocasião dos Capítulos Gerais. Em todas essas oportunidades a preocupação do Papa tem sido com a fidelidade dos consagrados ao próprio carisma, à própria espiritualidade e à própria missão, tendo sempre em vista a evangelização do mundo de hoje. O mundo necessita do consagrado. É um dos preciosos elementos que leveda a massa toda.

2. Um resumo das palavras do Papa temos no documento pós-sinodal de 25 de março de 1995 “Vita Consecrata”. Trata-se de uma vida profundamente arraigada nos exemplos e ensinamentos de Nosso Senhor. Ela é um dom de Deus Pai à sua Igreja por meio do Espírito Santo. A profissão dos conselhos evangélicos, característica da vida consagrada, faz com que os traços de Jesus pobre, virgem, obediente, adquiram especial visibilidade no meio do mundo. A vivência dos conselhos evangélicos atrai o olhar dos fiéis para o mistério do Reino de Deus atuante na história com a sua plena realização no fim dos tempos.

É um caminho de especial seguimento de Cristo. É um deixar tudo para estar com Cristo e colocar-se com Ele ao serviço de Deus e dos irmãos.

A vida consagrada diz respeito a toda a Igreja; não é uma realidade isolada e marginal. Está colocada no próprio coração da Igreja. É elemento decisivo para a sua missão, já que exprime a íntima natureza da vocação cristã e a tensão da Igreja-Esposa para a união com o único Esposo. A vida consagrada faz parte da vida, santidade e missão da Igreja.

3. Quando em 1994, ano do Sínodo sobre a vida consagrada e a sua missão na Igreja e no Mundo, os jornalistas perguntaram se, no final do milênio, não havia assunto mais importante do que este, respondeu-se-lhes que este era um assunto importantíssimo para o mundo de hoje porque o que mais faltava ao mundo era um suplemento de alma, uma espiritualidade, uma mística. Ora, com a vida consagrada deseja-se ajudar o mundo neste suplemento de alma, nesta espiritualidade, nesta mística. A profissão dos conselhos evangélicos coloca os consagrados como sinal e profecia para a comunidade dos irmãos e irmãs e para o mundo.

4. O aprofundamento da vida consagrada deve acontecer em uma tríplice dimensão: a da consagração, da comunhão e da missão.

4.1. A consagração só pode ser bem entendida na luz da consagração eucarística. O que acontece na consagração eucarística? Aí temos a mudança total do pão no corpo de Cristo e do vinho no sangue de Cristo.

Ora, a consagração religiosa é mudança total da pessoa em Jesus Cristo. A existência humana da pessoa se transfigura, se transforma, se converte, se muda, totalmente em Jesus Cristo. É entrega total a Nosso Senhor: é acolhimento total de Cristo na própria vida e na vida da Igreja. O consagrado faz de Cristo o sentido total da própria vida; preocupa-se em reproduzir, na medida do possível, “aquela forma de vida que o Filho de Deus assumiu ao entrar no mundo” (Lumen Gentium, 44). Às pessoas de vida consagrada Cristo pede uma adesão total, que implica o abandono de tudo (cf Mt 19,27), para viver na intimidade com Ele e segui-LO para onde quer que Ele vá (Apc 14,4).

A vida consagrada é, por isso, ícone da Transfiguração de Jesus no monte Tabor. É configuração a Cristo, é cristiformidade, prolongamento na história de uma presença especial do Senhor ressuscitado.

4.2. Comunhão… A vida consagrada é comunhão vista na luz da SS. Trindade. O Pai que, comunicando ao Filho a sua numericamente mesma natureza divina, comunga com o Filho por geração; o Pai e o Filho, comunicando ao Espírito Santo a sua mesma numericamente natureza divina, comungam com o Espírito Santo por espiração. Esta comunhão reflete-se na criatura racional através da Igreja que é povo de Deus a partir da unidade (=comunhão) do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Comunhão em Deus é abertura: o Pai está todo para o Filho; o Pai e o Filho estão todo para o Espírito Santo. Este “estar todo de um para o outro” é abertura de uma Pessoa Divina à outra. Assim também a comunhão eclesial é abertura das pessoas entre si, e isto especialmente na vida consagrada. A vida fraterna na vida consagrada apresenta-se como espaço humano habitado pela SS. Trindade, que difunde assim na história os dons da comunhão próprios das três Pessoas Divinas. A vida consagrada é um dos rastos concretos que a Trindade deixa na história para que os seres humanos possam sentir o encanto e a saudade da beleza divina.

4.3. Missão… A missionariedade está inscrita no coração mesmo de toda a forma de vida consagrada. Na medida em que o consagrado viver uma vida dedicada exclusivamente ao Pai (cf Lc 2,49; Jo 4, 34), cativada por Cristo (cf Jo 15, 16; Gal 1,15-16), animada pelo Espírito Santo (cf Lc 24,29; Atos 1,8; 2,4) ele coopera eficazmente para a missão do Senhor Jesus (cf Jo 20,21), contribuindo poderosamente para a renovação do mesmo.

As pessoas consagradas serão missionárias aprofundando continuamente a consciência de terem sido chamadas e escolhidas por Deus, para quem devem orientar toda a sua vida e oferecer tudo o que são e possuem, libertando-se dos obstáculos que poderiam retardar a resposta total do amor. Também o seu estilo de vida deve deixar transparecer o ideal que professam, sendo sinal vivo do Deus vivo e pregação persuasiva, mesmo que muitas vezes silenciosa, do Evangelho.

Conclusão

5. A vida consagrada faz parte intrínseca do Evangelho. Ela brota do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. É vivência a mais plena possível do Evangelho. Ela faz parte da estrutura carismática da Igreja, faz parte da vida e santidade da Igreja (Lumen Gentium, 44), santidade que é uma das notas essenciais da Igreja: Una Santa Católica Apostólica. Sem a vida consagrada a Igreja deixaria de ser Igreja, ver-se-ia privada de uma das notas essenciais do seu próprio ser íntimo. A Igreja produz santidade (a plenitude dos meios de salvação é confiada à Igreja) e ordena-se à santidade.

Não hesitemos! Trabalhando pela difusão da vida consagrada estamos trabalhando para uma nova primavera eclesial!

CNBB

(Comunidade Católica Shalom – http://www.comshalom.org)

Evangelização: Iluminar toda a realidade humana

A evangelização pode variar conforme as diversas circunstâncias de tempo, lugar e cultura, mas em síntese, podemos dizer com o Papa Paulo VI (1975) que a evangelização compreende o testemunho de vida, o anúncio explícito, a liturgia da palavra, a catequese, a utilização dos meios de comunicação social, o contato pessoal, os sacramentos e a religiosidade popular.

Não podemos esquecer que o principal e o maior serviço que a Igreja oferece ao ser humano é comunicar-lhe a Boa Nova, convidando-o a participar da vida Divina, iluminando, desta forma, toda a realidade humana.

Evangelizar é a missão central da Igreja e de todos os crentes. De acordo com o decreto “Ad Gentes” de Paulo VI (1965) sobre a atividade missionária da Igreja, toda a Igreja é missionária. A obra de evangelização é um dever fundamental do Povo de Deus. Nessa linha, nada mais claro que a afirmação de São Paulo na primeira carta aos Coríntios: “Anunciar o Evangelho não é glória para mim, é uma obrigação que me é imposta; Ai de mim, se não evangelizar!”.

Tarefa de todos

De acordo com a 3ª Conferência Geral do Episcopado Latino americano, a missão evangelizadora é de todo o povo de Deus. Esta é uma vocação primordial, sua identidade mais profunda. É sua felicidade. O povo de Deus como todos seus membros, instituições e planos existe para evangelizar. Precisamos escutar, com renovado entusiasmo, o mandato do Senhor: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura”.

Por isso, cada casa pode tornar-se escola do Evangelho. Em qualquer lugar o cristão deve fazer resplandecer sua luz a fim de que quem passe próximo possa encontrar a fé. A Igreja deve despertar essa consciência e tornar capazes e crentes as testemunhas.

Evangelizar em profundidade

Na própria 3ª Conferência Episcopal Latino americana, citada acima, se chegou a conclusão de que a evangelização deve orientar-se à formação de uma fé pessoal, adulta, interiormente formada, operante e constantemente enfrentada com os desafios da vida atual nesta fase de transição.

E isso importa evangelizar “não de maneira decorativa, como aplicando um verniz superficial, mas de maneira vital, em profundidade, e isto até suas raízes – a cultura e as culturas do homem”.

Tullio Faustino (BERETTA, 1995) acentua que são sujeitos da Evangelização – como Cristo seria – todos os homens de todos os tempos, de todos os lugares, de todas as condições… de qualquer raça e idade, de qualquer mentalidade e em qualquer situação.

Evangelização Cristocêntrica

O evangelho é uma notícia, e uma notícia boa. Mas não é somente isso. De acordo com José Prado Flores (1993, p.7), o Evangelho é o anúncio alegre de algo que já sucedeu: “a salvação integral do homem e de todos os homens, realizada pela morte, ressurreição e glorificação de Cristo Jesus. A proclamação está baseada em um feliz anúncio: Jesus já nos salvou!”.

Na 3ª Conferência Episcopal Latino-americana, foi visto que é dever nosso anunciar claramente, sem deixar dúvidas ou equívocos, o mistério da encarnação: tanto a Divindade de Jesus Cristo, tal como professa a fé da Igreja, como a realidade e a força de sua dimensão humana e histórica.

Ainda nesta conferência, ficou claro que, durante a evangelização, nós “não podemos desfigurar, parcelar ou ideologizar a pessoa de Jesus Cristo, nem fazer dEle um político, um líder, um revolucionário ou um simples profeta, nem reduzir ao campo meramente privado Aquele que é o Senhor da história”.

Portanto, evangelizar significa comunicar a todos os povos o plano de salvação desejado pelo Pai, realizado pelo Filho, difundido e anunciado pelo Espírito Santo por meio da Igreja.

Padre Luís Henrique EP
por GaudiumPress

(Comunidade Católica Shalom – http://www.comshalom.org)

Confissão é redescobrir o amor

Nestes momentos é necessário que os batizados redescubram o sacramento da confissão para que possam experimentar «a desmedida potência renovadora do amor divino», considera Bento XVI.

Assim constatou nesta segunda-feira, ao receber em audiência o cardeal James F. Stafford, penitenciário maior da Penitenciaria Apostólica, com os prelados e oficiais desse tribunal, assim como os padres penitenciários das basílicas papais de Roma.

«No gesto da absolvição, pronunciada em nome e por conta da Igreja, o confessor se converte no meio consciente de um maravilhoso acontecimento de graça», começou afirmando o pontífice em seu discurso pronunciado em italiano.

«Ao aderir com docilidade ao Magistério da Igreja, converte-se em ministro da consoladora misericórdia de Deus, manifesta a realidade do pecado e ao mesmo tempo a desmedida potência renovadora do amor divino, amor que volta a dar a vida», acrescentou.

Deste modo, afirmou, a confissão se converte «em um renascimento espiritual, que transforma o penitente em uma nova criatura».

«Este milagre de graça só pode ser realizado por Deus, e Ele o cumpre através das palavras e dos gestos do sacerdote.»

«Ao experimentar a ternura e o perdão do Senhor, o penitente reconhece mais facilmente a gravidade do pecado e reforça sua decisão de evitá-lo, para permanecer e crescer na reiniciada amizade com Ele», sublinhou.

«Em virtude da ordenação presbiteral, declarou o pontífice, o confessor desempenha um peculiar serviço ‘in persona Christi’», no lugar de Cristo.

«Ante uma responsabilidade tão elevada, as forças humanas são sem dúvida inadequadas», reconheceu. Por isso, convidou todos os sacerdotes do mundo a fazerem experiência do perdão de Deus.

«Não podemos pregar o perdão e a reconciliação aos outros, se não estamos pessoalmente penetrados por ele.»

«Cristo nos escolheu, queridos sacerdotes, para ser os únicos que podem perdoar os pecados em seu nome: trata-se, portanto, de um serviço eclesial específico ao que temos que dar prioridade», constatou.

«Quantas pessoas em dificuldade buscam o apoio e o consolo de Cristo! Quantos penitentes encontram na confissão a paz e a alegria que buscavam há tanto tempo!», exclamou.

«Como não reconhecer que também em nossa época, marcada por tantos desafios religiosos e sociais, é preciso redescobrir e volta a propor este sacramento?», perguntou.

Segundo a constituição apostólica «Pastor Bonus», com a qual João Paulo II estabeleceu a organização da Cúria Romana em 1988, «a competência da Penitenciaria Apostólica se estende ao que concerne ao foro interno [às questões de consciência, ndr], e às indulgências».

«Para o foro interno, tanto sacramental como não sacramental, concede as absolvições, dispensas, comutações, sanções, condenações e outras graças», explica essa constituição.

Desta forma, estabelece o documento, «provê a que nas basílicas patriarcais da Urbe haja um número suficiente de penitenciários, dotados das oportunas faculdades».

(Comunidade Católica Shalom – http://www.comshalom.org)

A ousadia de recomeçar

Nós precisamos ter a coragem de começar tudo de novo, de maneira alguma podemos nos acomodar com o que já fazemos e já sabemos. A vida é movimento; é um aprendizado constante; é a capacidade de sempre dar respostas diferentes. É a sensibilidade de perceber que precisamos mudar certos hábitos, de agir e não de simplesmente reagir; é ter a ousadia de recomeçar, de ser quem somos, de enfrentar os desafios, de nos colocar a serviço dos que necessitam, na certeza de que nunca estamos sozinhos, porque Jesus está sempre conosco auxiliando-nos e mostrando-nos por onde devemos seguir.

Muitas vezes, não avançamos porque temos medo de errar. Coloquemo-nos a caminho e comecemos tudo de novo, porque unidos ao Senhor tudo podemos.

“Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,13).

(Canção Nova ;D Luzia Santiago – Formação)

É possível evangelizar sem a oração?

A cada dia que passa me pergunto com uma certa angústia de quem esta chegando à belíssima idade de 60 anos, dos quais dediquei mais de 40 ao serviço de Deus, da Igreja no Carmelo, se é possível evangelizar sem a oração? Um questionamento que bate forte à nossa porta e nos obriga a parar para podermos compreender o que se entende por evangelização. Me parece que às vezes se tem a impressão que dentro da Igreja há pessoas que confundem a evangelização com ação social: fazer dar de comer, ajudar os pobres, servir aos mais necessitados, mas deixando de lado o anúncio corajoso da pessoa de Jesus.

O cristão é evangelizador em tudo o que ele faz e o seu coração, como o de Paulo, queima forte pelo Reino de Jesus. Evangelizar não é um trabalho qualquer nem uma atividade que se escolhe para ter o que comer ou ter uma vida mais tranqüila e folgada. É uma exigência interior: “ai de mim se eu não evangelizar”. Havia momentos que Paulo não sentia nenhuma vontade de anunciar o nome de Jesus porque sabia que isto lhe acarretaria muitos sofrimentos e dores. Era preferível calar-se, mudar de rumo e fazer outras coisas. Mas não lhe era possível, havia nele algo de mais forte do que a sua vontade humana. Assim a leitura atenta dos profetas nos faz encontrar que muitos profetas, diante da escolha de Deus se detém profundamente para poder fugir da responsabilidade e não consegue. Basta se lembrar de Moisés, ele discute com Deus, tenta indicar para Deus pessoas mais capazes, mas Deus se torna quase “cruel” com o mesmo Moisés e o coloca com as costas na parede “vai”, e Moisés se vê obrigado a ir lá onde Deus quer que ele vá.
Assim sentimos profundamente a fragilidade e o medo de Jonas que é enviado a Nínive para anunciar a libertação e Jonas, medroso, toma o caminho para Tarsis para se esconder do envio de Deus. E Deus, com mão firme, o faz voltar ao rumo certo. E como esquecer a relutância de Jeremias, de Isaías? E como não lembrar Amós que estava sereno e tranqüilo cuidando do seu rebanho e das suas plantações de sicômoros e Deus o envia para anunciar paz e justiça e diante da constatação do rei o mesmo Amós dirá: “eu não sou nem profeta e nem visionário, Deus me enviou”? Como não lembrar a mesma resistência dos apóstolos em deixar tudo e seguir Jesus para tornarem-se pescadores de homens?

Poderíamos passar atentamente na galeria dos santos e das santas e sempre nos encontraríamos com resistências para o anúncio do Evangelho. O medo do fracasso, da incompreensão e da cruz. Mas diante de tudo isto nos deparamos com homens corajosos, com mártires capazes de entregar a própria vida sem reservas para o anúncio do Reino, e derramar o próprio sangue. Por que tudo isto? Onde eles encontravam a força para não desanimar e não fugir da responsabilidade?

Oração.

A força dos profetas, dos mártires, dos apóstolos é uma só: a oração. É no diálogo íntimo, pessoal com Deus que brota uma força que nada e ninguém pode parar. Não podemos anunciar uma pessoa desinteressadamente se não somos apaixonados por esta pessoa. O apóstolo o evangelizador é alguém que, tendo encontrado Jesus, como Paulo na via de Damasco, no deserto ou no silêncio, foi seduzido e vencido por um ideal. Quantas vezes me parece ouvir no fundo do coração e no mais íntimo do ser as mesmas palavras que Paulo ouviu no caminho de Damasco: Saulo, Saulo por que me persegues? E Saulo, tomado por medo mas também fascinado pela luz e pelo amor, responde: “quem és tu, Senhor?” E a voz confirma: “sou aquele Jesus que tu persegues”…

Hoje nós somos perseguidores de Jesus quando não assumimos a missão evangelizadora, ou quando por medo, preferimos um evangelho “dietético”, que se acomode a todas as correntes do pensamento humano. Eu tenho medo que às vezes anuncie um Cristo revestido e apresentado com tantas facetas, para se entender um Cristo que tem um não sei quê de budismo, de marxista, de muçulmano, de espírita, de protestante…um Cristo tão ecumênico que não é mais o Cristo do evangelho do anúncio corajoso que não tem medo. Ser ecumênico não quer dizer adaptar o Cristo a todos os movimentos mas sim ser fiéis ao Cristo até à morte. Me parece que hoje nos falta a coragem de sermos mártires, o desejo de sermos mártires, e só assim poderemos falar de Jesus com convicção e amor.

Ninguém pode fugir desta missão de proclamar. Por isso que a oração é a fonte de onde brota a evangelização. O Papa João Paulo II o tem recordado quando nos fala que toda pastoral deve ser pastoral da oração.

Para esta pedagogia da santidade, há necessidade dum cristianismo que se destaque principalmente pela arte da oração. O ano jubilar foi um ano de oração, pessoal e comunitária, mais intensa. Mas a oração, como bem sabemos, não se pode dar por suposta; é necessário aprender a rezar, voltando sempre de novo a conhecer esta arte dos próprios lábios do divino Mestre, como os primeiros discípulos: « Senhor, ensina-nos a orar » (Lc 11,1). Na oração, desenrola-se aquele diálogo com Jesus que faz de nós seus amigos íntimos: « Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós » (Jo 15,4). Esta reciprocidade constitui precisamente a substância, a alma da vida cristã, e é condição de toda a vida pastoral autêntica. Obra do Espírito Santo em nós, a oração abre-nos, por Cristo e em Cristo, à contemplação do rosto do Pai. Aprender esta lógica trinitária da oração cristã, vivendo-a plenamente sobretudo na liturgia, meta e fonte da vida eclesial, mas também na experiência pessoal, é o segredo dum cristianismo verdadeiramente vital, sem motivos para temer o futuro porque volta continuamente às fontes e aí se regenera.(NMI 32)

Quem não reza não vai sentir o entusiasmo, a paixão, o amor transbordante por Jesus. E o anúncio que não toca o coração se esvai. São João da Cruz, com seu tom duro mas certeiro, me faz medo e me coloca em crise: “muito bem fariam os pregadores do evangelho.

“Minha alma se há votado,
com meu cabedal todo, a seu serviço;
já não guardo mais gado,
nem mais tenho outro ofício,
que só amar é já meu exercício.
Considerem aqui os que são muito ativos, e pensam abarcar o mundo com suas pregações e obras exteriores: bem maior proveito fariam à Igreja, e maior satisfação dariam a Deus – além do bom exemplo que proporcionariam de si mesmos, – se gastassem ao menos a metade do tempo empregado nessas boas obras, em permanecer com Deus na oração, embora não houvessem atingido grau tão elevado como esta alma de que falamos…” (Cântico 28, 3)

Quem sabe se eu mesmo deva rever o meu apostolado e me colocar na escuta de Jesus como Maria em Betânia e, escutando Jesus, possa falar dele com mais amor. É o caminho da oração que nos dá a alegria de anunciar; não porque o anúncio é acolhido mas porque uma força maior do que nós nos manda anunciar.

Santa Teresinha.

O Carmelo, desde o seu início quando Teresa movida pelo Espírito Santo fundou uma nova Ordem Carmelita e, com a ajuda de João da Cruz, o complementou com os carmelitas descalços de maneira que “monjas e frades” formam uma única realidade, sempre teve a clareza da força da oração como apostolado. A Igreja e seus problemas se tornam problemas e necessidades do mesmo Carmelo.

“A Santa Madre(Teresa) transmitiu a suas filhas seu próprio espírito apostólico, desejando que se afeiçoassem ao bem das almas e ao aumento da Igreja, sinal evidente da verdadeira perfeição. Por isso lhes indicou o serviço eclesial da oração e da imolação, como finalidade da vocação para a qual o Senhor mesmo as havia reunido no Carmelo.”(Constituições das Carmelitas Descalças 125)

Teresa diz: “no dia em que vossos trabalhos, orações e jejuns não forem pela Igreja, considerai que não atingis o objetivo para o qual o Senhor as reuniu aqui.(Caminho 3,10)” Esta chama viva de amor eclesial e apostólico foi tomada e tornada mais acesa pela teologia vivencial e vocacional de Santa Teresinha do Menino Jesus. Ela é o novo paradigma da força da oração como apostolado. É só acolher e entender o que diz no manuscrito C: “na Igreja, minha mãe, serei o amor”. Não podendo abraçar toda a Igreja e todos os lugares escolhe o caminho que abraça a todos. “Serei missionária pela oração e pelo sacrifício. “Tenho a vocação de ser Apóstolo… quisera percorrer a terra, pregar teu nome e plantar sobre o solo infiel tua Cruz gloriosa.(MB 2v)”
Fazer apostolado é um momento da vida, um espaço da vida. Para todos vai chegar o dia em que, por força da idade, da doença, ou de outros acontecimentos, deixaremos de “fazer apostolado”, de anunciar com palavras e obras, mas nunca podemos deixar de “ser apóstolos”, porque isto faz parte “geneticamente” do nosso ser cristão.

Shalom.

Por que gosto tanto do Shalom? Vou dizê-lo com poucas palavras. Porque vejo nesta Comunidade a forte união da oração com o apostolado. Tudo, antes de ser feito, é rezado, é colocado diante do Senhor. A oração não pode ser um momento da vida mas sim a vida. Mas é necessário ter momentos fortes de oração, sentar ao poço da Samaria e esperar que Jesus, “pedindo-nos de beber”, ele mesmo nos dê de beber a água viva que é ele mesmo. Só quando, como a samaritana, encontrarmos Jesus “correremos” para a cidade e anunciaremos a todos a nossa descoberta.

Que o Shalom, fiel à sua vocação, possa ajudar a todos os evangelizadores a perceberem que a evangelização deve ser, antes de tudo, “rezada” antes de ser anúncio. O Shalom, tão amigo do Carmelo na leitura e na meditação dos grandes místicos, possa ter a consciência de que todos os santos, de Francisco a Catarina de Sena, de Teresa a Santa Teresinha, de João da Cruz a Inácio de Loyola ou Camilo de Lelis… todos os santos nunca anunciavam a palavra sem tê-la antes rezado, interiorizado e vivenciado. A paixão pelo anúncio nasce da paixão pelo o anunciador e anunciado Cristo Jesus.

Maria, modelo de oração, nos ensine a sermos orantes porque somente assim a evangelização será o jorrar, nos corações e nas almas, Jesus fonte de salvação. E o mesmo Jesus o evangelizador do Pai, antes de anunciar a boa nova, se retirava ao deserto, à noite, na montanha, para estar a sós com o Pai e escutar do Pai o que ele deveria dizer. Se Jesus rezava para anunciar o Evangelho será que é possível ainda anunciar o Evangelho sem a oração? A evangelização sem a oração é uma ideologia boa, mas que não trás a salvação.

Edith Stein dirá que a fenomenologia, a guerra, não trazem a salvação da humanidade, somente a paixão de Jesus salva o mundo. Nada de mais belo que poder entrar conscientemente na “dinâmica da evangelização”, fruto da oração. Evangelizar quer dizer “escutar o que Deus quer que se anuncie e não anunciar o que nós queremos”… O evangelizador não tem pensamento próprio, ele deve sempre dizer: meu alimento é fazer a vontade do Pai.

Frei Patrício Sciadini, OCD

(Comunidade Católica Shalom – http://www.comshalom.org)

Somos da geração João Paulo II

Toda uma geração foi influenciada pelo pensamento e vida de João Paulo II. Ainda quando era padre na Polônia e quando bispo de Carcóvia, seu grande encanto e dedicação eram os jovens, a quem ele chamaria, décadas depois, de “minha alegria e minha coroa”.
Esse amor pelos jovens foi, por um lado seu maior legado à Comunidade Shalom e, por outro, o ponto de encontro entre ele e o jovem Moysés Azevedo Filho que, aos seus pés como aos pés da Igreja entregava a Cristo sua vida e juventude a serviço dos jovens. Dois amores à juventude que se encontram no mesmo momento de oferta durante a Eucaristia pela doação de vida por amor a Deus.
Como sabemos, nenhum encontro aos pés do altar é um mero acaso. Estava selado, naquele 9 de julho de 1980, o que se concretizaria exatamente dois anos depois, numa despretensiosa lanchonete e só seria entendido dez anos mais tarde: Deus tinha um plano. Nosso passo fundante a nível espiritual havia sido dado com a entrega de vida para a evangelização dos jovens e todos os que se encontram longe de Deus. Para isso existimos, por Deus e por eles nos entregamos.
Pouco a pouco, descobriríamos muito mais sobre o Papa que mudaria tantas vidas que formaria uma “geração”, a “geração João Paulo II”, ou, como a chamam alguns, geração dos “filhos de João Paulo II”. Descobriríamos e daríamos nossa mais profunda adesão à sua visão de homem, expressa em seu tempo de seminarista, de filósofo, de teólogo: “o homem é a via de Deus” e Deus, naturalmente, é a “via do homem”.
Sua encíclica “Redemptor Hominis”, escrita sete anos antes da fundação de nossa comunidade, colocaria Jesus como inteiramente Deus e inteiramente homem na medida certa, na linguagem adequada e atraente ao homem do século XX, como pediu o Vaticano II.
Em nossa espiritualidade e ação apostólica, o “homem, via de Deus e Deus via do homem” sempre foi profundamente marcante. Encontramos Deus em nossa própria humanidade frágil e a submetemos inteiramente a Ele, nossa Via, na adoração, contemplação, Lectio Divina. Cheios do Seu Espírito, vamos ao encontro do homem, via de Deus, na vida fraterna, no apostolado, nos jovens, nas famílias, nos pobres de todo tipo, no amor e defesa da vida em todas as suas fases. A esses homens alcançados por nosso apostolado, levamo-los a Deus, a única via do homem.
Não por acaso, nossa espiritualidade tem seu centro em Jesus Ressuscitado que passou pela Cruz e comunicou a paz aos seus discípulos ao entrar no Cenáculo, ressuscitado, trazendo a marca de suas chagas em sua Santa Humanidade Ressuscitada. Sua boca humano-divina realmente disse “Shalom!”. Sua divindade realmente comunicou a Paz que é Ele mesmo. (cf. Jo 20,19)
Da mesma forma, não poderíamos considerar “acaso” ou “coincidência” o fato de a ida para o céu e a beatificação de João Paulo II se darem exatamente quando a liturgia da Igreja proclama o “Evangelho de nossa vocação”: Jo 20), nem acaso é nossa saída permanente em busca dos Tomés de hoje. Esses fatos só confirmam que nós, com muito amor e orgulho somos, sim, andarilhos de Deus, apaixonados pelos jovens e por todos os homens, da geração de João Paulo II.

por Emmir Nogueira, Co-Fundadora da Comunidade Shalom

(Comunidade Católica Shalom – http://www.comshalom.org)

João Paulo II é proclamado Beato, o dia esperado chegou, diz Papa!

“E o dia esperado chegou! Chegou depressa, porque assim aprouve ao Senhor: João Paulo II é Beato! João Paulo II é Beato pela sua forte e generosa fé apostólica”. Quando Bento XVI pronunciou essas palavras, a Praça de São Pedro estremeceu neste Domingo da Misericórdia, 1º de maio, data escolhida para a Beatificação do Papa polonês. Mais de um milhão de peregrinos dirigiram-se a Roma para fazer parte deste acontecimento histórico.
Após os ritos iniciais da Santa Missa, o Vigário do Papa para a Diocese de Roma, Cardeal Agostino Vallini, apresentou o pedido de Beatificação do até então Venerável Servo de Deus João Paulo II. Em seu pedido, o Cardeal lembrou João Paulo II como um homem que “mirava sempre o horizonte da esperança, convidando os povos a derrubar os muros das divisões”. Logo após, Bento XVI pronunciou a fórmula que tornou João Paulo II Beato da Igreja e, da mesma janela onde foi apresentado como Papa ao mundo, em 1978, foi desvelada a imagem oficial do novo Beato.

Acesse: (Canção Nova ;D)
Na íntegra: Homilia de Bento XVI na Beatificação de João Paulo II

Todos os vídeos da cobertura da Beatificação de João Paulo II
Página especial da Beatificação de João Paulo II

Bento XVI recordou que, embora a tristeza pela perda de João Paulo II fosse profunda no dia de sua morte, a sensação de que uma graça especial envolvia o mundo todo era ainda maior. “Já naquele dia sentíamos pairar o perfume da sua santidade, tendo o Povo de Deus manifestado de muitas maneiras a sua veneração por ele. Por isso, quis que a sua Causa de Beatificação pudesse, no devido respeito pelas normas da Igreja, prosseguir com discreta celeridade. E o dia esperado chegou! Chegou depressa, porque assim aprouve ao Senhor: João Paulo II é Beato! João Paulo II é Beato pela sua forte e generosa fé apostólica”, exclamou.

O Santo Padre ressaltou que a bem-aventurança eterna de João Paulo II é a da fé, dom que recebeu do Pai para edificar a Igreja. Nessa perspectiva, também a Mãe do Redentor revela-se como ponto fundamental da vida e espiritualidade do Papa polonês. “Hoje diante dos nossos olhos brilha, na plena luz de Cristo ressuscitado, a amada e venerada figura de João Paulo II. Hoje, o seu nome junta-se à série dos Santos e Beatos que ele mesmo proclamou durante os seus quase 27 anos de pontificado, lembrando com vigor a vocação universal à medida alta da vida cristã, à santidade”, explicou.
s por ele em primeira pessoa. “Aquilo que o Papa recém-eleito pedia a todos, começou, ele mesmo, a fazê-lo: abriu a Cristo a sociedade, a cultura, os sistemas políticos e econômicos, invertendo, com a força de um gigante – força que lhe vinha de Deus –, uma tendência que parecia irreversível. Com o seu testemunho de fé, de amor e de coragem apostólica, acompanhado por uma grande sensibilidade humana, este filho exemplar da Nação Polaca ajudou os cristãos de todo o mundo a não ter medo de se dizerem cristãos, de pertencerem à Igreja, de falarem do Evangelho. Numa palavra, ajudou-nos a não ter medo da verdade, porque a verdade é garantia de liberdade. Sintetizando ainda mais: deu-nos novamente a força de crer em Cristo, porque Cristo é o Redentor do homem”, salientou Bento XVI.

Por fim, o Bispo de Roma agradeceu a Deus também pela experiência de colaboração pessoal que teve longamente com o Beato Papa João Paulo II, já que foi chamado por Wojtyla como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé ainda em 1982, somando 23 anos de amizade e colaboração.

“O meu serviço foi sustentado pela sua profundidade espiritual, pela riqueza das suas intuições. Sempre me impressionou e edificou o exemplo da sua oração. E, depois, impressionou-me o seu testemunho no sofrimento. A sua humildade profunda, enraizada na união íntima com Cristo, permitiu-lhe continuar a guiar a Igreja e a dar ao mundo uma mensagem ainda mais eloquente, justamente no período em que as forças físicas definhavam. Assim, realizou de maneira extraordinária a vocação de todo o sacerdote e bispo: tornar-se um só com aquele Jesus que diariamente recebe e oferece na Eucaristia. Feliz és tu, amado Papa João Paulo II, porque acreditaste! Continua do Céu – nós te pedimos – a sustentar a fé do Povo de Deus. Amém”.

Ao final da celebração, Bento XVI, juntamente com os cardeais, bispos e concelebrantes, dirigiu-se em procissão ao interior da Basílica de São Pedro, para rezar diante do caixão de João Paulo II, que continua exposto para veneração.

(Canção Nova ;D)