Reconciliai-vos com Deus – Convite a experimentar a Misericórdia

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Estamos nos aproximando da Semana Santa. O tempo da Quaresma, como caminhada de conversão e penitência rumo à Páscoa, tem como um belo e importante sinal visível dessa caminhada de “metanóia” a celebração do sacramento da Penitência. Somos chamados a fazer a experiência da misericórdia de Deus em nossas vidas. Para isso, somos iluminados pela Palavra de Deus e a ação do Espírito Santo para que, aprofundando a nossa realidade de pecado, experimentemos ainda mais a graça que nos vem pelo amor derramado em nossos corações em Jesus Cristo, nosso Senhor.

O pecado é o ato voluntário de quem se afasta da comunicação com a graça divina. Mas o sacramento da Reconciliação, ou Confissão, como também se pode chamar, vem reatar os laços da pessoa com Deus. Quando Jesus inicia sua vida pública, anuncia um convite à penitência: “porque o Reino de Deus está próximo”. Isto já se dá no momento do seu batismo, e, convida o precursor, São João Batista, para que continue nesta pedagogia divina. Sabemos que as consequências do pecado vão longe, não só em nossas vidas, mas também na própria vida social.

A Penitência é a ação que nos conduz a uma vida nova e a viver em oração e fidelidade ao Evangelho e, por isso, somos chamados a uma vida de conversão para prevenir contra as faltas no futuro. Podemos ver nas cartas paulinas quão inúmeras vezes o Apóstolo Paulo exorta as comunidades à reconciliação. Vale lembrar das consequências do pecado na vida da pessoa humana, nos relacionamentos e no próprio tecido social.

A Igreja recomenda confessar-se pelo menos pela Páscoa da Ressurreição, mas este sacramento deve ser buscado sempre que houver alguma transgressão à Lei Divina. Ou seja, pelo exame de consciência, o ser humano saberá da necessidade de buscar a reconciliação. Quanto mais somos iluminados pela Palavra e quanto mais perto do Senhor, mais enxergamos nossos pecados. Deus não condena o pecador, mas repudia o pecado. Basta recordar o capítulo 15 de São Lucas e tantos outros trechos do Evangelho, que nos falam da alegria do pecador arrependido. Deus é sempre justo e misericordioso, e como Pai bondoso sempre espera o retorno de seu filho amado, obra de Sua vontade para você existir no mundo. Lembre-se: você é querido, amado e pensado por Deus! O retorno ao amor de Deus transforma os corações, os pensamentos e comportamentos daquele que caminha como uma nova pessoa, deixando para trás tudo o que fazia parte do velho homem.

Pela razão e pela fé, vemos no pecado o pior dos males; por isso há a necessidade de conversão e reconciliação, na busca do sacramento da Confissão, que religa a alma humana à graça divina. Na prática, após a confissão, o penitente deve ter a clara consciência de suas atitudes e/ou lugares que põem sua alma em risco. A nova vida o leva a ter novas atitudes.

Às vezes acontece que numa confissão regular, mensal, por exemplo, o “penitente” possa ficar preso em um impasse. Isso ocorre quando se nota que na confissão a rotina dos pecados é a mesma. Ele tem uma boa vontade, ele vê seus pecados, sempre se arrepende, e decide melhorar. E até agora nada. Cada vez é a mesma coisa. Esta situação pode causar frustração. Pois nada realmente mudou na minha vida espiritual? E o penitente se questiona: Eu sou moralmente tão corrupto? Ou talvez eu seja apenas um que não sirvo para nada?

Cada momento é uma nova oportunidade de caminhada, na direção à comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs. Torna-se necessário rever nosso estilo de vida. Encontrar as raízes de nosso pecado. É importante rezar todos os dias e, para isso, é necessário intimidade, um lugar que é o meu espaço pessoal para o encontro com Deus e comigo mesmo. Tendo um lugar de oração é mais fácil manter a regularidade e o tempo de meditação e reflexão. São Bento sempre dizia “Ora et labora”, que quer dizer: “oração e trabalho!”

E quem pode se esquecer do momento em que Jesus, pregado na cruz, dialoga com um famoso ladrão também pregado ao lado dele? “Mestre, quando estiver no Reino de Deus, lembra-se de mim!” e Jesus responde: “Ainda hoje estarás no paraíso comigo!” Existe maior prova de amor e misericórdia que isso? Mesmo sangrando e perfurado pelos pregos, lá na cruz, Jesus estende seu gesto de misericórdia. Daí, podemos perceber como que, de fato, o amor de Deus se estende e sua misericórdia transcende. E o soldado, aos pés da cruz, que exclama: “Este Homem é, de fato, o Filho de Deus!”

Por isso, o rito da Confissão é um ato que leva à justiça para com Deus, nos reincorpora em Jesus, retomando a nossa veste batismal, pois somos unidos como ramos à videira pelo próprio sacramento do Batismo.

Caríssimos, estamos já bem próximos da Páscoa do Senhor. Em todo o mundo é um período privilegiado para a aproximação ao sacramento da confissão. Não deixe de visitar sua paróquia ou comunidade e verificar o calendário dos mutirões de confissão. Reconciliação com Deus, neste sacramento, é o abraço Dele de acolhida ao filho ou filha. Sinta, depois disso, o alívio em seu coração e comungue com leveza de coração!

Santa Páscoa a todos! Rezem pela nossa santa Igreja e pelo nosso Papa Francisco, neste novo período que iniciamos. Deus dê a todos uma santa continuação da Quaresma e os abençoe!

Dom Orani João Tempesta
Arcebispo Metropolitano do Rio de Janeiro

Fonte: Canção Nova – http://www.cancaonova.com

Ícones

I. ÍCONES 

I.1. Origem

No Antigo Testamento a reprodução da sua imagem, por causa disso, a Divindade do Senhor só era retratada através da arte decorativa, em especial, a uma forma geométrica. Com a encarnação do Filho de Deus, tornou-se possível retratar o Deus invisível, uma vez que Aquele é não apenas o Verbo, mas também a Sua imagem. Dessa forma, o ícone retrata não uma imagem inacessível à vista, mas uma pessoa real.

O fundamental e primeiro ícone é, portanto, a Face de Cristo que exprime, através da imagem o dogma do Concilio de Calcedônia: “O ícone não representa tão somente a natureza Divina, nem só a natureza humana de Cristo, mas representa a sua pessoa, a pessoa de Deus-Homem que reúne em si sem mistura nem divisão as duas naturezas.”

Uma vez retratado o Deus invisível, passou-se a retratar também a Mãe de Deus e os santos porque assumindo a natureza humana, o Filho de Deus renova no homem a imagem obscurecida
Uma tradição muito difundida atribui os primeiros ícones a São Lucas que, admitida a sua intimidade com a Mãe de Deus ainda viva, tendo levado a Ela para que a reconhecesse e desse poder para salvar a quem o venerasse.

I.2. Significado do termo

A palavra ícone deriva do termo grego “eikom” que significa “imagem”. Todavia na historia da arte e na linguagem comum a palavra ícone é reservada a uma pintura de gênero sagrado executada sobre madeira com uma técnica peculiar e segundo tradição transmitida pelos séculos tem forte caracter sobrenatural, sua pátria é o Oriente Bizantino.

Os ícones são chamados imagens do invisível pelo fato de retratarem a realidade espiritual. Representam Jesus Cristo, a sua Mãe de Deus, os anjos, os santos e os outros temas religiosos , o ícone não é o resultado de uma instrução ou da impressão do artista ele é fruto de uma tradição, uma obra profundamente meditada, não é um quadro, nele vem representado não aquilo que o pintor tem diante dos olhos, mas um protótipo a que ele deve ater-se. A veneração do ícone deriva da veneração do protótipo.

I.3. Significado Espiritual

Podemos dar ao ícone 4 “características” que a profundam e enriquecem o misticismo que o envolve. A primeira é o de que o ícone é canal de graça com virtude santificadora, uma vez que, depois de bento, torna-se um sacramental, sinal da graça eficaz por causa dos poderes e da oração da Igreja, é auxilio na vida espiritual; o ícone torna presente a pessoa que o representa, graças a semelhança com o seu protótipo (semelhança aprovada pela Igreja); o ícone é lugar de encontro, quanto mais o fiel olha os ícones, mais recorda daqueles que ali estão representados e se esforçam por imitá-los; por fim, temos a certeza de que o ícone é uma janela para a eternidade. Saindo do mundo sensorial, que se atém ao belo e as suas paixões, pode-se mergulhar no ícone aponto de não mais olhar, mas deixar-se ser olhado por ele, e dessa forma ser iluminado pela fé e conduzido ao mundo do Espirito.

II. Momentos Históricos

II.1. Guerra Iconoclasta

Os ícones, no mundo bizantino, conseguiram posição relevante na manifestação da fé, pessoal e coletiva. Essa expressão cultural, entretanto, teve de atravessar um período histórico por demais crítico, no qual se manifestou aquela que foi considerada a última das heresias: a crise iconoclasta, 727-843.

Infelizmente, muitos ícones antigos se perderam por obra dos iconoclastas- pessoas de outra fé que, por não concordarem com a veneração dos ícones e por isso os destruíam tanto quanto possível- porém, foi justamente nessa época que surgiu a sua importância. Através do sofrimento e do martírio daqueles que tudo faziam para defender as imagens sagradas, é que se desenvolveu a teologia necessária para melhor compreendê-los.
Sabe-se que já na época da heresia de Ário começa-se a colocar do lado das imagens de Cristo as letras alfa e ômega, em referencia ao texto de Ap. 2, 13, para melhor explicara divindade do Filho consubstancial ao Pai.

A Igreja do século VII se interessou pelo conteúdo da imagem apresentada aos fieis e teve a consciência de perceber neste a prefiguração do Antigo testamento a realidade do Novo. Ainda neste século uma decisão conciliar formula a ligação do ícone com o dogma da encarnação.
Momento muito marcante da historia dos ícones foi a conhecida guerra iconoclasta. Esta se deu no império bizantino durante os séculos VIII e IX e se desenvolveu sob a direção de príncipes e imperadores contra a Igreja e suas imagens, conforme já dito antes.

A guerra contra as imagens foi declarada em 725 pelo Imperador Leão III e repercutiu em grande parte do Oriente chegando apenas indiretamente no Ocidente, onde aportaram monges foragidos das perseguições trazendo consigo ícones salvos violência dos iconoclastas. O triunfo desta guerra foi bastante comemorada no seio da Igreja e ainda hoje é conhecido como Festa da Ortodoxia.

II.2. Defesa do ícone por parte da Igreja

Várias vezes a Igreja se posicionou a favor da veneração dos ícones e das imagens em geral. O Concílio Niceno II, 787, sancionou a legitimidade do culto aos ícones e pediu à Igreja e ao imperador o controle da tipologia iconografia por medo dos desvios heréticos. O conceito fundamental do concílio era que os ícones são santos e que se pode realizar perante eles atos de veneração.

III. O ícone na liturgia e na devoção

III.1. O lugar do ícone na liturgia e na devoção

Desde a mais remota antigüidade, a imagem acompanhou a vida litúrgica cristã. Para o ícone obedecesse uma norma quanto ao seu lugar: no fundo do presbitério, atras do altar, dominam os ícone de Jesus Cristo e da Mãe de Deus. Entrando em uma Igreja tanto sacerdotes como fieis da tradição bizantina, sejam ortodoxo ou católicos, tem uma postura de respeito para com estes, ao se aproximarem dos ícones expostos, inclinam respeitosamente a cabeça, fazendo o sinal da cruz sobre o peito 1 ou 3 vezes, tocando o chão com a mão direita. Após uma breve oração, beijam primeiramente a imagem de Cristo, sempre à direita, depois a da Mãe de Deus, à esquerda, e, eventualmente, aquela da festa ou do periodo liturgico sempre colocada no centro da igreja sobre uma mesinha alta. Ao lado dos ícones temos um grande círio ou uma cantoneira com muitas velas acendidas pelos fieis como expressão exterior de sua invocação.

Os ícones são levados em procissão pelos sacerdotes ou pelas pessoas encarregadas, que geralmente os seguram com respeito pela moldura, a fim de evitar o contato direto das mãos. Abençoa-se com o ícone.

III.2. O ícone e os fiéis

Dependendo do país e da cultura deste, os ícones recebem um “papel” diferente, mais sempre tendo preservado o respeito e a veneração que lhes são devidos. Antes da cerimonia de casamento, por exemplo, os pais abençoam os filhos com o ícone, em geral da virgem Maria; um filho que parta para o serviço militar também é abençoado com este; o casal antes do ato conjugal consagram-se diante deste; diante do ícone que a família adota para si, são colocados os desejos existentes no coração de seus membros, geralmente através de bordados na estola- um casal que deseja Ter um filho, pode bordar na estola decorativa uma criança, a fim de que tão anseio esteja sempre aos olhos Daquele que é representado pelo ícone.
Como preparação para a eterna liturgia celeste, nas igrejas e nas casas, o ícone tem um papel de ajudar os fiéis na penetração da Revelação, guiando-os e santificando-os.

III.3. Iconostase

Nas Igrejas Bizantinas nota-se uma divisão entre a parte destinada ao Clero, o Santuário ou “Santos dos Santos” e a nave dos fieis. Essa separação que é uma parede divisória é revestida de ícones é chamado de Íconostase. Ela deseja colocar aos olhos dos fieis o plano da salvação e sua progressiva realização. Os temas dos ícones variam nas diversas igrejas. Sem a íconsotase, os ritos liturgicos bizantinos não são celebrados adequadamente, uma vez que, durante estes, o Sacerdote pode passar por suas portas nos momentos fixados pelo rito.

A íconostase embora seja uma parede divisória, não é um muro de separação, uma separação para esconder o altar. Ela tem o desejo e objetivo de ajudar os fieis a entrar em comunhão com a Igreja do céu, a participar da história da salvação e exaltar os santos mistérios renovados sobre o altar com todos os que nos aguardam nos tabernáculos celestes.

III.4. Iconografia

É uma arte teológica que consiste na visão e no conhecimento de Deus. Separadamente nem a arte nem a teologia poderiam criar um ícone, pois o ícone tem dupla responsabilidade, deve ser fiel ao mundo visível e também a Deus.

O ícone é o resultado de uma longa tradição de meditação elaboração de aperfeiçoamento de técnicas de pintura e possui rica teologia de formas e cores estreitamente relacionadas com está. Os temas dos ícones são determinados por regras estabelecidas pela Igreja Ortodoxa; não estão, portanto, sujeitos à especulação intelectual. O ícone revela a realidade espiritual que está além de toda expressão verbal.

As técnicas envolvidas no emprego da luz e da cor criam a sensação de estarmos olhando para um mundo iluminado, não por uma luz externa que lança sobras, mas pela luz da graça divina que transforma edificações e paisagens e se manifesta principalmente na iluminação interior dos santos. As edificações mostram que determinados acontecimentos ao seu alcance não estão confinados a um momento histórico preciso, mas pertencem ao mundo do Espírito. O sentido mais amplo tem de ser encontrado na alma do espectador.

Gaetano Passarelli diz que “o ícone tornou-se e símbolo das Igrejas de tradição bizantina. Na realidade, é a expressão e o patrimônio da Igreja indivisa, isto é, de todos os povos cristãos que professam a mesma fé no único Santo”.

Os ícones são, assim, um meio de entrar na quietude do coração onde Deus pode ser conhecido e amado.

(Comunidade Católica Shalom – http://www.comshalom.org)

Lectio Divina

A Lectio Divina

O que é?

Os antigos monges da Igreja encontraram um método muito simples e eficaz de orar com a Bíblia, adaptado à vida de silêncio e intimidade com Deus que levavam. A tradição chamou tal método de “Lectio Divina”. Na verdade este método é a base de todos os outros que apareceram na história da espiritualidade, e continua sendo atual e eficaz, ainda que hoje há quem diga que o método tende a tornar mecânica a oração, demasiadamente metódico. Mas a Lectio não está superada.

Por Lectio Divina se entende uma leitura atenta e devota da Sagrada Escritura. O adjetivo “divina” é devido ao objeto da leitura: a Palavra de Deus. É uma leitura da Palavra feita num contexto de oração, para poder escutar aquilo que Deus quer nos dizer, para conhecer a sua vontade e viver melhor o discipulado.

A Lectio Divina deve nos levar a escavar, entrando sob a crosta do escrito, para descobrir aí o rosto de Deus. Não teorias, portanto, mas enamoramento. Quem pratica a Lectio, ensina Gregório Magno, pode chegar a atingir dois fins: a plenitude do livro ou a plenitude do Verbo. O primeiro diz respeito à compreensão da palavra escrita, enquanto que o segundo progride em direção à Palavra viva. “A oração não é um capricho do homem, mas é a vontade de Deus que a ela nos atrai, porque todo bom presente e todo dom vem do alto e desce do Pai da luz” (Tg. 1,17), sem o qual não podemos fazer nada, por isto é necessário que antes de iniciar a Lectio Divina devemos invocar o Espírito Santo, porque sem a sua ajuda, não é possível descobrir o sentido que a Palavra de Deus tem para nós hoje.

Os passos da Lectio

Guido II, Prior da Grande Cartuxa (1173-1180), descrevia o itinerário da Lectio Divina da seguinte maneira: « Procurai, lendo, e encontrareis, meditando; chamai, orando e abrir-se-vos-á pela contemplação». E, mediante bela metáfora, descreve as etapas da «Lectio Divina»: « A leitura ( da Bíblia) leva à boca o alimento sólido; a meditação corta-o e mastiga-o; a oração saboreia-o, a contemplação é doçura que alegra e recria».

1. INVOCATIO

Antes de abrir a Bíblia, ora ao Espírito Santo: recorda que a Palavra escrita no Espírito deve ser compreendida no Espírito. Podes invocá-lo com um canto, com palavras que fluem do teu coração, ou com a oração da Igreja: “Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis, e acendei neles o fogo do vosso amor.

V. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado.

R. E renovareis a face da terra.

2. LECTIO

Ler e reler com tranquilidade a página da Sagrada Escritura escolhida, sublinhando as palavras ou os elementos mais importantes (repetição de nomes, coisas, lugares) e perguntar-se: o que diz o texto em si mesmo?

3. MEDITATIO

É a fase do diálogo com o texto sagrado, perguntando-se: o que me diz o texto? É a fase em que se recolhe os textos paralelos ao texto escolhido, o momento de descobrir os valores e as mensagens espirituais da Palavra de Deus: é hora de saborear a Palavra de Deus e não apenas estudá-la. Você, diante de Deus, deve confrontar este trecho com a sua vida. A meditação, segundo Santa Teresa, consiste em «discorrer muito com o entendimento».Por meditação entendemos o esforço indispensável para descortinar as verdades contidas no texto proclamado. A meditação tem como objetivo responder à pergunta: «que me quer Deus dizer»? Consiste, portanto, em procurar a verdade de Deus escondida no texto, à imagem de Nossa Senhora, que «guardava todas as coisas no coração». Guido, o Cartuxo, descreve assim as duas primeiras etapas da «lectio divina»: a «leitura busca; a meditação encontra. Entra pelo caminho aberto através da leitura e encontras o que esta tinha procurado». Os Santos Padres explicam que a meditação da Palavra de Deus ajuda a encontrar nela « um alimento doce e nutritivo», como a abelha que, depois de ter sugado as flores, fecha-se no seu favo e faz o mel de que todos beneficiam, pobres e ricos, nobres e humildes». S. Bernardo define a meditação com esta metáfora gráfica:: «Quando rumino docemente a Palavra de Deus, inflamam-se minhas entranhas e fico saciado no meu íntimo». A meditação da Palavra desperta o gosto pela «compreensão das Escrituras e dos mistérios de Deus». A meditação pode-se valer de interpretações da Tradição da Igreja e outros “textos” que ajudam na penetração do texto. Trata-se de entrar no texto, verificar o que ele quer dizer, parando-se naquilo que toca, que fere. É o momento da scrutatio (coleta) e elaboração (ruminatio).

5. COLLATIO

É a partilha da meditação, colocando em comum as verdades tocantes que o texto revelou a cada um, quando a lectio se faz em grupo. É um modo de conferir com os outros as etapas do nosso percurso espiritual. Diziam os rabinos que a Bíblia tem cem rostos!. De fato, a partir do mesmo texto, o Espírito Santo pode sugerir a cada um diferentes experiências de fé. Na partilha dialogamos e partilhamos as experiências, saídas da meditação da mesma Palavra do Senhor. A Bíblia não pode considerar-se propriedade exclusiva de ninguém. Pertence ao Povo de Deus, à Igreja, e só em comunidade de fé sua leitura terá pleno significado. Para tal muito pode contribuir a partilha. Na Liturgia é toda a comunidade que escuta, normalmente, sem partilha. A leitura em grupo e nas assembléias possibilita a partilha entre os membros das diferentes experiências de fé. A partilha da Palavra, contribui, além disso, para a criação dum sentido comunitário da fé e para intensificar a comunhão na diversidade, em Igreja. Mas nunca por nunca poderá conduzir à discussão, à ruptura. A Palavra de Deus não pode servir para a discussão, mas antes para nos maravilharmos, ao verificar como Deus age em cada um de nós. . Talvez por isso, Santo Isidoro tenha afirmado que «a partilha é superior á leitura individual.

6. ORATIO

Toda boa meditação desemboca naturalmente na oração. É o momento de responder a Deus após havê-lo escutado. Esta oração é um momento muito pessoal que diz respeito apenas à pessoa e Deus. É um diálogo pessoal! Não se preocupe em preparar palavras, fale o que vai no coração depois da meditação: se for louvor, louve; se for pedido de perdão, peça perdão; se for necessidade de maior clareza, peça a luz divina; se for cansaço e aridez, peça os dons da fé e esperança. Enfim, os momentos anteriores, se feitos com atenção e vontade, determinarão esta oração da qual nasce o compromisso de estar com Deus e fazer a sua vontade. Momento de perguntar-se: o que o texto me leva a dizer a Deus? Antes era Deus a falar-me, agora sou eu a responder-lhe. A oração constitui a terceira etapa ou degrau da «lectio divina». Depois da leitura e meditação «ruminada», o leitor sobe a outro patamar, ao patamar da oração. De acordo com a etimologia , orar é estar boca a boca com Deus., um dialogo intimo e pessoal com o Senhor. O leitor e ouvinte da Palavra, torna-se-á necessariamente orante. Orar é o iluminar de luz interior os divertículos do coração. A oração passa por diversos graus, desde a simples oração vocal até à oração contemplativa,. Mas constitui sempre dom de Deus. Ela é gratuita, não se mede por palavras, mas por atitudes que brotam de dentro de nós, quando conscientes da intimidade com Deus. Quem ouve e medita a Palavra do Senhor, não pode deixar de agradecer ao Deus que nos fala. Da meditação brota vontade de orar. Santo Agostinho recorre a um belíssimo trocadilho:«quando lês, é Deus que te fala; quando oras, falas tu a Deus». A oração surge do encontro do «coração» do homem com o «coração» de Deus, por mediação da sua Palavra».. A oração situa-se no centro da resposta do homem à Palavra do Senhor. Pela oração entra na experiência Deus Pai (ABBA). O cristão, como Maria, ora a Deus com a Palavra de Deus».

7. CONTEMPLATIO

Desta etapa a pessoa não é dona. É um momento que pertence a Deus e sua presença misteriosa, sim, mas sempre presença. É um momento no qual se permanece em silêncio diante de Deus. Se ele o conduzirá à contemplação, louvado seja Deus!Trata-se do momento em que se começa a ver o mundo e a vida com os olhos de Deus, assumindo a verdade dEle. Aparentemente, oração e contemplação, seriam uma mesma coisa. Situada na linha da oração, a contemplação indica todavia etapa diferente. Está num grau mais elevado. Exprime a meta da via espiritual, em que a criatura se une ao Criador. É o termo da escalada do monte onde Deus habita, o Sinai e o Tabor do encontro pessoal com o Senhor. É a «alegria de viver só para Deus», na expressão de Santo Isidoro. Quando alguém «conhece e compreende, quer e anela, saboreia somente a Deus», experimenta a contemplação. Contemplar não significa tanto um novo olhar acerca do mundo, mas consiste em nos sentirmos olhados e amados por Deus1. Para Guido, o Cartuxo, a oração tende à contemplação: «Batei e abrir-se-vos-á pela contemplação». Quanto mais pura e afetiva for a oração, mais cedo desembocará na contemplação. Neste mundo, para a alma crente, a contemplação é a mais sublime dádiva do amor divino, a felicidade do amante humano, porque introduz o homem no mistério do amor de Deus, a expressão suprema da felicidade do homem em Deus. De qualquer modo, é a partir do olhar contemplativo, que se aprofunda nova visão do mundo e a vontade de o transformar.

8. OPERATIO

Depois do nosso discernimento sobre a realidade pessoal, eclesial e social segundo o ponto de vista de Deus, nasce um empenho concreto de vida para realizar-se na vida cotidiana: a ânsia e a alegria da evangelização, da missão e da promoção humana no território da nossa Igreja local, porque o contemplativo é um evangelizador que, depois da escuta da Palavra, como Maria, “com tanta ânsia, coloca-se em viagem”. Para os antigos a «lectio divina» culminava na contemplação do mistério de Deus, A meta da vida cristã consistia em viver angelicamente na presença de Deus!. A «lectio divina», processo cristão da leitura divina e escuta da Palavra, não pode fechar-se na interioridade. Deve levar à conversão, através do testemunho de vidas comprometidas ao serviço de Deus e dos outros (Lc. 10,28). A Palavra de Deus conduz «a sabedoria do coração», isto é, a uma vida com Deus e em Deus, que implica compromisso sério pela edificação do Seu Reino e pela transformação do mundo. O «encontro com Deus, segundo S. Bento, leva o cristão ao encontro dos irmãos e faz dele um «irmão útil».. suscitando novos profetas, possuídos de dinamismo evangelizador. A contemplação torna-se fermento de transformação humana, social, política. Efetivamente, percorridos os caminhos do Espírito, há que passar à banalidade do quotidiano, descer da montanha divina à planície humana. O cristão deve, portanto, abundar em boas obras. Assim demonstrará que o compromisso da «Lectio divina» corresponde ao compromisso com a eficácia da Palavra de Deus (Atos 2, 37).A Palavra de Deus lida e partilhada, a sós ou em grupo, força a tomar posição, perante Deus e perante o mundo criado. Disso nos advertia Santo Agostinho: «Prestai atenção, irmãos, porque nesta passagem bíblica se trata precisamente de vós. O contacto com a palavra de Deus, que fecundou a terra do coração com a chuva fecundante da Palavra torna o cristão homem rico em boas obras (Is. 55,11). A ação passa a ser testemunho, compromisso, vida vivida, partilhada, e é isso que faz a força da palavra de Deus lida, meditada, rezada, contemplada. Pelos obras externas os cristãos começam a exteriorizar naturalmente aquilo de que estão interiormente possuídos. Numa hermenêutica existencial, não se pode ler a Bíblia apenas como documento histórico, mas como Palavra que Deus me dirige a mim, aqui e agora., forçando-me a tomar posição, diante dEle e do mundo criado. Termino com uma nota bíblica, que contém certo humor para os judeus. Um judeu estudante do Talmud dizia ao rabino, seu Mestre::«Rabbi, já não sou ignorante: já entrei muitas vezes dentro do Talmud». Ao que respondeu o rabino: «Mas quantas vezes deixaste tu entrar o Talmud dentro de ti»? Aí está. O importante não está em entrar muitas vezes na Bíblia, lendo-a e meditando-a. Mais importante será conseguir que a Bíblia entre dentro de nós, como recomenda a Dei Verbum (11 e 21):

«É tão grande o poder e a força da Palavra de Deus, que constitui sustento e o dinamismo da Igreja, firmeza de fé para os seus filhos, alimento da alma, fonte límpida e perene de vida espiritual». (DV 11 e 21). Ou lembrar a recomendação da Paulo:«O Evangelho é a força de Deus para salvação de todos os que crêem» (Rm 1,16). Com estas disposições, este caminho da «lectio divina» conseguiremos que a Palavra de Deus se torne « fogo purificador» (Is.6,6-7); chuva fecunda que faz efeito (Is. 55,10-11);«gozo e alegria do coração» (Jer. 15, 16); «força sedutora e fogo ardente» (Jer. 20,7-9); «alimento» (Mt.4,4).

(FONTE: http://www.carmelo.com.br – Ordem dos Carmelitas Descalços)