O sacrifício escolhido na quaresma e a nossa dor

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Caminhamos dentro da quaresma e a impressão comum é que o caminho estreita-se ainda mais em cada novo domingo. Parece-me que leva algum tempo para reconhecermos o mistério que nos sonda, e em larga medida, vamos compreendendo que esse mistério se descortina, irremediavelmente, na dor, na oferta incondicional.
Lembro, que com algum tempo de caminhada, questionei de Deus qual era a diferença da dor que sentia antes de conhecer a Jesus para a profunda, intensa, constante por dias, dor que experimentei depois.
A resposta é o selo que desejo imprimir neste artigo, amigo internauta. A resposta é uma única: O sentido que eu dou a ela (dor) e aproveitamento que dela eu tiro.

Passemos a clássica explicação!

Por vezes, depois da beleza e da intensidade da nossa experiência com Deus chegamos a imaginar, de forma até infantil ou romântica, que os nossos problemas, que as nossas dores, morreram naquele instante. A imaturidade da nossa alma, teima desafiar inclusive os exemplos dos grandes santos da Igreja e da sagrada escritura, que atestam, indubitavelmente, a necessidade do sofrimento como caminho de maturidade e autoconhecimento.
O passar do tempo, nos revela o inevitável. Ainda há dor em mim. Agora, esta nova dor, diferente da primeira, por muitas vezes eu até poderia remediar, sucumbindo a tentações, desprezando a vontade de Deus e tomando as atitudes que me dariam de certo, momentos de prazer e alegria. A dor agora consiste exatamente em abster-me de tudo isso, e por Amor, e só vale a pena se for por Amor mesmo, sofrer as renúncias, as demoras, os desertos e as fadigas que a dor impõe.
Mas olhando assim, sofreríamos ainda o risco de achar que se trata de um infrutífero masoquismo. Ou pior: Pensaríamos que Deus é sádico, a nos impor uma prova que nada fará florescer.
A dor descortina diante de nossos olhos o que há de mais verdadeiro. Atesta o que há de mais autêntico em nosso eu. Mais do que isso, estica-nos, pois de fato exige, e nos leva a alcançarmos estaturas antes nunca imagináveis.
Com certeza assim como eu, você já deve ter sido confrontado com dores que humanamente não acreditava que iria ser capaz de resistir, e hoje ao olhar para trás, assume que não resistiu sozinho. Ao seu lado resistiu Cristo, que por essas pérolas da sua história revigora sua fé. Ao olharmos a nossa caminhada, encontramos nas dores que sentimos pedras de toque da graça de Deus e da Sua poderosa manifestação em nossas vidas.
Se tivéssemos abortado a dor, o que nos restaria para ser tocado de expressão tão forte quanto os desafios que vencemos por Amor a Deus e com o Seu socorro?

A dor nos confronta, sobretudo, com nós mesmo. Confronta-nos com a disposição por permanecer firme, por querer lutar, por querer enxergar as nossas reais motivações. Talvez, como eu, você também tenha conseguido enxergar sob a lente da dor, o egoísmo e orgulho que rodeavam as suas motivações. Estas fraquezas só são purificadas no cadinho da dor, onde Deus gera em nós um coração humilde, para com o próprio Deus e para com o irmão.
O crescimento na dor nos conduz ao crescimento na Ressurreição, que nasce do coração de Cristo, cumulando-nos do Amor que o Príncipe da Paz doa a todos.

Marcela Mendonça

(Comunidade Católica Shalom – http://www.comshalom.org)

Primeira Homilia do Papa Francisco, 14/03/13

Nestas três leituras vejo que há algo em comum: é o movimento. Na primeira leitura o movimento no caminho; na segunda leitura, o movimento na edificação da Igreja; na terceira, no Evangelho, o movimento na confissão. Caminhar, edificar, confessar.

Caminhar. “Casa de Jacó, vinde, caminhemos na luz do Senhor” (Is 2, 5). Esta é a primeira coisa que Deus disse a Abraão: Caminha na minha presenaça e seja irrepreensível.

Caminhar: a nossa vida é um caminho e quando paramos, as coisas não caminham. Caminhar sempre, na presença do Senhor, na luz do Senhor, buscando viver daquela maneira irrepreensível que Deus pedia a Abraão, na sua promessa.

 Edificar. Edificar a Igreja. Fala-se de pedras: as pedras tem consistência; mas pedras vivas, pedras ungidas pelo Espírito Santo. Edificar a Igreja, a Esposa de Cristo, sobre aquela Pedra Angular que é o próprio Senhor. Eis um outro movimento da nossa vida: edificar.

Terceira, confessar. Nós podemos caminhar quanto queremos, nós podemos edificar tantas coisas, mas se não confessamos Jesus Cristo, as coisas não caminham. Nos tornaremos uma ONG assistencial, mas não a Igreja, Esposa do Senhor. Quando não se caminha, para-se. Quando não se edifica sobre pedras o que acontece? Acontece o que acontece com as crianças na praia quando fazem castelos de areia, tudo cai, é sem consistência. Quando não se confessa Jesus Cristo, me vem a frase de Léon Bloy: “Quem não reza ao Senhor, reza ao diabo”. Quando não se confessa Jesus Cristo, se confessa a mundanidade do diabo.

Caminhar, edificar, construir, confessar. Mas não é uma coisa fácil, porque no caminhar, no construir, no confessar às vezes há problemas, há movimentos que não são propriamente do caminho, mas são movimentos que nos levam para trás.

Esse Evangelho prossegue com uma citação especial, o próprio Pedro que confessou Jesus. Diz: “sim, tu és o Messias, o filho do Deus vivo”. Mas não vamos falar de Cruz. Isso não tem nada a ver. Sigo com outras possibilidades, não com a Cruz. Quando caminhamos sem a Cruz, quando edificamos sem a Cruz e quando confessamos com Cristo sem Cruz, não somos discípulos do Senhor. Somos mundamos, somos bispos, cardeais, papa, mas não discípulos do Senhor.

Gostaria que todos nós depois desses dias de graça, tenhamos a coragem de caminhar na presença do Senhor, com a Cruz do Senhor. De edificar a Igreja com o Sangue do Senhor que derramou sobre a Cruz e confessar a única glória desse crucifixo. E assim a Igreja poderá prosseguir.

Faço votos de que a todos nós, o Espírito Santo, com a oração a Nossa Senhora, nos conceda essa graça: caminhar, edificar e confessar Jesus Cristo crucificado.

Assim seja!

Rosário de Amor pelas Almas do Purgatório

 

Rosário de Amor pelas Almas do Purgatório

 

+ No Credo
Dulcíssimo Jesus, pelo suor e sangue que derramastes no Horto das Oliveiras, tende piedade das almas do Purgatório!
+ Nas Ave-Marias
Jesus, Maria eu Vos amo! Salvai almas!
+ No primeiro Pai Nosso
Dulcíssimo Jesus, pelas dores da Vossa crudelíssima flagelação, tende piedade das almas do Purgatório!
+ No segundo Pai Nosso
Dulcíssimo Jesus, pelas dores da Vossa coroação de espinhos, tende piedade das almas do Purgatório!
+ No terceiro Pai Nosso
Dulcíssimo Jesus, pela dores que sofrestes no caminho do Calvário, tende piedade das almas do Purgatório!
+ No quarto Pai Nosso
Dulcíssimo Jesus, pelas dores da Vossa penosíssima agonia, tende piedade das almas do Purgatório!
+ No quinto Pai Nosso
Dulcíssimo Jesus, pelas imensas dores que sentistes expirando na Cruz, tende piedade das almas do Purgatório!
+ Na Salve Rainha
Dulcíssimo Jesus, pelas últimas gotas de Sangue do Vosso Coração transpassado pela lança, tende piedade das almas do Purgatório!

 

A amizade exige tempo, purificação e fidelidade à verdade!

Mesmo com as impossibilidades e com todos os desafios que comporta o dom da amizade, Deus vai nos dando a graça da escolha gratuita e a criatividade de darmos provas de amor um ao outro, simplesmente sendo nós mesmos. Aprende-se muito com o amigo, através do amor a Deus que se concretiza na discrição, na alegria, na transparência em sermos quem somos, sem máscaras e sem mesquinhez no coração. A amizade requer o cultivo do relacionamento e a arte de ter aprendido que na relação não nos serve escondermos o que constitui o nosso potencial interior e a nossa verdade, aquilo que Deus mesmo realizou nas nossas vidas ou aquilo pelo qual lutamos pra vencer e superarmos.

Somos um mistério fascinante, mesmo que tenhamos de admitir que a limitação e a fragilidade nos marquem. A amizade acontece mesmo quando é preciso tocar naquele mistério de graças como de misérias presentes no coração de cada um de nós. “Característica da amizade é a certeza de encontrar o imutável no mutável”, afirma o escritor Giuseppe. Recordo-me de uma expressão que tomei conhecimento já a alguns anos atrás, que diz: “Quero um amigo com o qual eu tenha, na sua presença, a liberdade de sentir-me fraco, ser diante dele aquilo que realmente eu sou.”

Quando nos deparamos com as fragilidades dos nossos amigos, costumamos considerar como um desafio, mas nunca deveria chegar ao ponto de nos desestimular. Acho que não é possível explicar o “por que” que aquela pessoa nos escolheu como amigo, pois é Deus mesmo cuidando, protegendo, nos dando a sua misericórdia e nos convidando à santidade. Quando procuramos a amizade não a encontramos, porque a amizade verdadeira não é objeto de procura. Acredito que é Deus mesmo que cuida de despertar em nós todo o potencial humano e sua graça utiliza-se das nossas capacidades humanas, tais como: a percepção, a intuição, o esvaziamento, humildade e a disposição para sairmos de nós mesmos e acolhermos o dom da vida de quem deseja estreitar a relação conosco. Quando caçamos a amizade ela nos escorre pelos dedos, não a alcançamos porque ela se encontra primeiramente dentro de nós. Reconhecemos essencialmente no mais profundo do nosso coração, aquela identidade que comunga com quem começa a viver conosco o período de conquista da amizade.

Não é possível que a amizade seja autêntica e transparente quando não deixamos que o próprio coração tenha sentido a necessidade de reconhecer o outro como alguém que parece trazer consigo aquelas disposições necessárias para conosco construir uma amizade. É pobreza de coração e de personalidade chamar alguém de amigo quando ainda de fato não o é. Quem se apressa a chamar o outro de amigo quando não houve tempo ainda para o amadurecimento da escolha, da confiança e da prova do amor, não compreende de fato a amizade como um exercício que exige tempo, purificação e fidelidade à verdade, portanto, não está mesmo preparado para viver a amizade que atinge a profundidade e a maturidade, mas a vive na superficialidade.

Muitas vezes temos necessidade de evidenciar a amizade, não para celebrá-la por gratuidade, mas para fugir da sensação de angústia e dor de não termos amigos de verdade, amigos que foram conquistados, cultivados e inseridos no nosso ser mais profundo pelo próprio amor de Deus. Quem não trilha esse caminho acaba construindo amizades vulgares e medíocres, interesseiras e incapazes de permanecerem quando chega o tempo da adversidade. Nessa condição o amigo é amigo enquanto dele sempre consigo extrair algo, talvez usufruir daquilo que satisfaz as minhas próprias carências.

Temos necessidade de amizades verdadeiras que promovam a felicidade e a liberdade de ser quem somos na esperança de que Deus seja o centro e nos ajude a viver a partilha e a comunicação, e então essa amizade em Deus pode amenizar a adversidade, a dor e a solidão que tantas vezes nos pesa na alma, próprios do caminho da purificação e do amadurecimento da liberdade interior. Que o Senhor Jesus seja “o amigo de nossas almas” e nos ajude a vivermos o dom da amizade, e a vivê-la de forma autêntica, humana, divina, profética e escatológica. Que a Virgem Maria interceda por todos nós, chamados à amizade com Deus, o autor dos encontros felizes.

Antonio Marcos

(Blog Antonio Marocs – http://antoniomarcosaquino.blogspot.com.br/search/?q=amizade)

As mãos de Maria

No Calvário, junto à cruz, estava de pé Maria. Nessa hora, uma das últimas preocupações de Jesus foi a de confiá-la ao apóstolo João. : “Eis aí tua mãe”. O próprio evangelista nos testemunha que “dessa hora em diante… a levou para a sua casa” (Jo 19,27).
Segundo uma antiga tradição, após a morte e ressurreição do Senhor, quando cresceu a perseguição contra os cristãos, na Palestina, João levou Maria Santíssima para a cidade de Éfeso, na Ásia Menor – hoje, pertencente à Turquia. Não se sabe ao certo quanto tempo eles moraram ali. Dessa permanência temos hoje uma “relíquia”: parte da casa onde a Mãe de Jesus morou.

No século treze, passando por Éfeso os cruzados construíram uma pequena capela ao lado dessa casa. O local ficou depois abandonado por muito tempo até que, no final do século dezenove, foi reencontrado por religiosos e religiosas que seguiam a espiritualidade de S. Vicente de Paulo († 1660). Haviam saído da França, pois tinham ouvido falar da existência dessa Casa de Maria, ali; depois de muito procurarem por ela, desanimados, já pensavam voltar a seu país, quando fizeram a descoberta. Então, no altar da capela construída pelos cruzados, colocaram uma imagem de Nossa Senhora das Graças – isto é, aquela imagem que foi feita a partir das descrições de Santa Catarina Labouré († 1876), também ela religiosa na Congregação fundada por S. Vicente: Maria pisa a serpente sobre o globo terrestre e de suas mãos estendidas desprendem-se raios de graças.

Do começo da Primeira Guerra Mundial, até alguns anos depois da Segunda, a Casa de Maria ficou novamente abandonada. Nessa época, pessoas desconhecidas tiraram as mãos da imagem e, segundo o que ali se conta, as jogaram no vale logo em frente. E é assim que ainda hoje se encontra a imagem de Nossa Senhora, em Éfeso: sem mãos.

De início, fiquei chocado com a cena: a imagem de Nossa Senhora, a Mãe de Jesus, de braços abertos, acolhendo os peregrinos (cerca de um milhão por ano), mas sem as mãos! Não é fácil aceitar essa situação, mesmo em se tratando de uma imagem. Afinal, as mãos de Maria Santíssima acariciaram Jesus, prepararam sua comida e lavaram sua roupa. Foram elas que apoiaram o Filho de Deus para que ele aprendesse a andar, a comer e a escrever. As mãos de Maria estiveram sempre em função de Jesus e – supremo gesto de dor e de amor! – receberam seu corpo, quando foi tirado da Cruz. Por tudo isso, as mãos de Maria poderiam dar origem a um belo poema. Em Éfeso, contudo, sua imagem ficou semidestruída, amputada, sem mãos. Não sei o motivo por que nunca quiseram providenciar-lhe outras. E não será agora que o farão, já que os peregrinos se acostumaram a vê-la assim, e fazem questão de levar para suas casas uma reprodução que lhes lembra justamente isso: Maria está sem mãos!

Procurando fazer a leitura desse fato, concluí que ele é rico de ensinamentos, especialmente para as mães de nosso tempo.

As mãos de Maria, hoje, são as mãos das jovens que, no dia do casamento, esperam que seus esposos nelas coloquem a aliança. São as mãos das religiosas que se cruzam num gesto de consagração ao Senhor. São as mãos das enfermeiras que, num hospital, apertam o braço de um doente terminal, procurando transmitir-lhe conforto. São as mãos das mães que trocam a roupa dos filhos irrequietos. São, também, as mãos das operárias que cuidam do tear e as das agricultoras que preparam a terra para receber a semente.

A imagem de Maria, em Éfeso, não tem mãos. Mas ela própria tem milhares, tem milhões de mãos pelo mundo afora. Através delas, Maria continua abençoando, amparando e confortando a Jesus, que hoje tem o rosto do menino de rua e da criança da catequese, do aluno curioso e da criança que cedo ficou órfã, do filho brincalhão e da garota estudiosa.

Para algum peregrino de Éfeso poderá ser motivo de surpresa encontrar uma imagem de Maria sem mãos. Para cada mulher que assim a vê, e, particularmente, para cada mãe, é um renovado apelo a emprestar-lhe suas mãos para que, com elas, Maria continue hoje, pelos caminhos do mundo, servindo a seu Filho Jesus.

Dom Murilo Krieger
Arcebispo de Salvador

(Comunidade Católica Shalom – http://www.comshalom.org)

Semana Santa

 

Por Semana Santa entendem-se os últimos dias da Quaresma e o início do Tríduo Pascal. Esta Semana inicia-se com a procissão, que recorda a entrada messiânica de Jesus em Jerusalém, e com a missa em que se lê a paixão segundo um dos Evangelhos sinópticos.

Efetivamente, a celebração do inteiro mistério pascal de Cristo constitui o momento privilegiado do culto cristão, não só no seu desenvolvimento anual, mas quotidiano e semanal. O mistério pascal de Cristo é o princípio basilar de toda a reforma litúrgica: «a Santa Igreja celebra a memória sagrada da obra da salvação de Cristo, em dias determinados, ao longo do ano. Em cada semana, no dia a que foi dado o nome de “domingo”, comemora a Ressurreição do Senhor, que é celebrada também em cada ano, juntamente com a sua bem-aventurada Paixão, na grande solenidade da Páscoa»[1].

Os primeiros testemunhos da celebração anual da Páscoa remontam à metade do século II e situam-se nas Igrejas da Ásia Menor. No Ocidente, os documentos sobre a celebração do Tríduo pascal são parcos nos primeiros quatro séculos. Todavia, Santo Ambrósio (+397) refere o termo “Triduum Sacrum” e Santo Agostinho (+430) usa, claramente, a expressão “Sacratissimum Triduum” para indicar os dias em que Cristo sofreu, repousou no sepulcro e ressuscitou, ou seja, «o Tríduo de Cristo crucificado, sepultado e ressuscitado». Por tal motivo, o Tríduo pascal não constitui uma preparação da solenidade da Páscoa, mas é, verdadeiramente, a celebração da morte e da Ressurreição de Cristo, da qual resplandece a novidade de vida em Cristo que brota da sua morte redentora.

Na verdade, a “teologia dos três dias”[2] comemora o mistério da cruz gloriosa de Cristo, o seu repouso no sepulcro e a sua Ressurreição, qual realização do desígnio salvífico. Estas celebrações são introduzidas pela Missa da Ceia do Senhor e atingem o seu momento culminante na Vigília pascal da noite santa. O Tríduo pascal da Paixão e da Ressurreição do Senhor, ponto culminante de todo o Ano litúrgico, inicia-se com a Missa da Ceia do Senhor, tem o seu centro na Vigília Pascal e termina com as Vésperas do Domingo da Ressurreição. No século VII já se conhece uma estrutura ritual da Vigília pascal constituída por três elementos fundamentais: a Palavra, o Batismo e a celebração eucarística.

O significado teológico dos três dias é realçado pelo Catecismo da Igreja Católica, nestes termos: «partindo do Tríduo pascal, como da sua fonte de luz, o tempo novo da Ressurreição enche todo o ano litúrgico da sua claridade. Ininterruptamente, dum lado e doutro desta fonte, o ano é transfigurado pela liturgia. É realmente “ano da graça do Senhor”»[3]. E, a seguir, acrescenta: «É por isso que a Páscoa não é simplesmente uma festa entre outras; é a “festa das festas”, “solenidade das solenidades”, tal como a Eucaristia é o sacramento dos sacramentos (o grande sacramento). Santo Atanásio chama-lhe “o grande Domingo”, tal como a semana santa é chamada no Oriente “a semana maior”»[4].

A festa da Páscoa do Senhor é o dia (Hodie) por excelência da passagem à vida nova, a festa das festas. A liturgia da Igreja que nasceu da Páscoa está inundada pela admiração, exultação e alegria, conforme os textos deste dia solene do ‘sacramento pascal’: «este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria»[5].

A Páscoa é, com efeito, o tempo festivo, no qual a Igreja é convidada a celebrar com mais solenidade a «Cristo, nossa Páscoa, que foi imolado. Ele é o Cordeiro de Deus que tirou o pecado do mundo: morrendo destruiu a morte e ressuscitando restaurou a vida»[6].

Os estudos atuais acerca do mistério pascal permitiram descobrir a íntima relação entre o dom do Espírito Santo, a Ressurreição e a Ascensão do Senhor. Por tal motivo, a Igreja celebra os cinquenta dias da Páscoa como “um grande Domingo”. A Ascensão do Senhor celebra-se no quadragésimo dia pascal ou se transfere para o Domingo seguinte, o VII Domingo da Páscoa. O Pentecostes celebra a plenitude da Páscoa: «Hoje manifestastes a plenitude do mistério pascal e sobre os filhos de adoção, unidos em comunhão admirável ao vosso Filho Unigénito, derramastes o Espírito Santo, que no princípio da Igreja nascente revelou o conhecimento de Deus a todos os povos da terra e uniu a diversidade das línguas na profissão duma só fé»[7].

A Igreja orante convida-nos, portanto, a cantar, na alegria do coração, o perene Aleluia em Cristo, nossa Páscoa.

D. José Cordeiro-Bispo de Bragança-Miranda.


[1] SAGRADA CONGREGAÇÃO DOS RITOS-CONSILIUM, «Normas gerais sobre o Ano litúrgico e o calendário 1», in EDREL, 130.
[2] Cf. H. VON BALTHASAR, Teologia dei tre giorni (Biblioteca di teologia contemporanea 61), Editrice Queriniana, Brescia 42000.
[3] Catecismo da Igreja Católica 1168.
[4] Catecismo da Igreja Católica 1168-1169.
[5] Sl 117.
[6] Missal Romano, Prefácio pascal I.
[7] Missal Romano, Prefácio de Pentecostes.

(Comunidade Católica Shalom – www.comshalom.org)

Bendito o que vem em nome do Senhor!

Desde o princípio da Quaresma preparamo-nos com obras de penitência e caridade. Neste Domingo de Ramos, a Igreja recorda a entrada de Nosso Senhor Cristo, em Jerusalém, para consumar o Seu mistério pascal. Por isso, em todas as Missas essa entrada do Senhor na Cidade Santa é comemorada, tanto com a procissão como com a entrada solene antes da Celebração Eucarística principal ou com a entrada simples antes das outras Missas.

Foi para realizar esse mistério da Sua Morte e Ressurreição que Jesus Cristo entrou na Cidade Santa. Por isso, recordando com fé e devoção essa entrada triunfal nesse local sagrado, acompanharemos o Senhor, de modo que, participando agora da Sua cruz, mereçamos um dia ter parte na Sua Ressurreição.

A leitura atenta da Paixão de Cristo suscita uma inevitável pergunta: quem foram os responsáveis pela morte de Jesus, os judeus ou os romanos?

Na Morte de Jesus misturaram-se motivos políticos e religiosos, embora a responsabilidade mais direta caia – de acordo com a narração evangélica – sobre as autoridades judaicas daquele tempo e não sobre todo o povo.

Porém, a leitura do Evangelho, com um olhar de fé, acaba por descobrir outros responsáveis pela Morte de Cristo, ou seja, todos nós.

Ele foi abatido pelas nossas iniquidades (cf. Is 53,3). Todos nós podemos ouvir, dirigidas a cada um de nós pessoalmente, as palavras que o profeta Natã dirigiu a Davi quando este lhe perguntou quem foi o malvado que matou a única ovelha do pobrezinho. Ele responde: “Esse homem és tu!” (II Rs 12,7) .

Sim, foi você. Fui eu. Fomos todos nós. Cada homem é responsável pela Morte de Cristo. Não estão sozinhos Judas que O atraiçoou, Pedro que O negou, Pilatos que lavou as mãos e a multidão que repetiu: “Crucifica-O!”, os soldados que repartem entre si as vestes do Condenado, os ladrões criminosos. Estamos todos nessa situação de responsabilidade.

Mas não podemos ficar aqui. Sabemos não só que Jesus morreu verdadeiramente e foi sepultado. Sabemos também que ressuscitou ao terceiro dia, subiu e está sentado à direita do Pai. Morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa salvação.

Desde hoje temos de olhar já para o Domingo de Páscoa. Mas para que este olhar não seja um sentimento vazio, precisamos levá-lo verdadeiramente a sério, isto é, morrer, por intermédio do arrependimento e da confissão dos nossos pecados – sobretudo os pecados mortais – e assim ressuscitar para a vida da Graça.

“Bendito seja o que vem em nome do Senhor!” A liturgia do Domingo de Ramos é como que um pórtico de ingresso solene na Semana Santa.

Esta liturgia associa dois momentos entre si contrastantes: o acolhimento de Jesus em Jerusalém e o drama da Paixão; o “Hosana!” de festa e o grito repetido várias vezes: “Crucifica-O!”; a entrada triunfal e a derrota aparente da morte na Cruz. Assim, antecipa o “momento” em que o Messias deverá sofrer muito, será morto e ressuscitará no terceiro dia (cf. Mt 16,21), e prepara-nos para viver em plenitude o mistério pascal.

Portanto, “Solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti” (Zc 9,9). Jerusalém, a cidade em que vive a memória de Davi rejubila ao receber Jesus. A cidade dos profetas, muitos dos quais nela sofreram o martírio por causa da Verdade. A cidade da paz, que ao longo dos séculos conheceu a violência, a guerra e a deportação.

De certa forma, Jerusalém pode ser considerada a “cidade-símbolo” da humanidade, sobretudo no dramático tempo em que vivemos neste Terceiro Milênio. Por isso, os ritos do Domingo de Ramos adquirem uma particular eloquência. Ressoam confortadoras as palavras de Zacarias: “Exulta de alegria, filha de Sião! Solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti: ele é justo e vitorioso, humilde, montado num jumento. O arco de guerra será quebrado. Proclamará a paz para as nações” (Zc 9,9-10). Hoje estamos em festa, porque Jesus – o Rei da Paz – entra em Jerusalém.

“Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus!” Ouvimos de novo a clara profissão de fé, pronunciada pelo centurião, que “O viu expirar daquela maneira”. Daquilo que viu, surge o testemunho surpreendente do soldado romano, o primeiro que proclamou que aquele Homem crucificado “era o Filho de Deus”.

Senhor Jesus, também nós vimos como sofreste e como morreste por nós. Fiel até ao extremo, Tu nos libertaste da morte com a Tua morte. Senhor Jesus, como o oficial romano, confessamos a Tua condição de Filho de Deus crucificado. Que nós compreendamos o verdadeiro sentido de Tua paixão e possamos professar: VERDADEIRAMENTE ESTE HOMEM ERA FILHO DE DEUS!

Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel. Hosana nas alturas!

Padre Bantu Mendonça

(Canção Nova – http://www.cancaonova.com)