Homilia de Bento XVI na Missa de Quarta-feira de Cinzas -13/02/13

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CELEBRAÇÃO DE QUARTA-FEIRA DE CINZAS
Basílica de São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Venerados Irmãos,
caros irmãos e irmãs!

Hoje, Quarta-feira de Cinzas, iniciamos um novo caminho quaresmal, um caminho que se estende por quarenta dias e nos conduz à alegria da Páscoa do Senhor, à vitória da Vida sobre a morte. Seguindo a antiquíssima tradição romana da stationes quaresimais, nos reunimos hoje para a Celebração da Eucaristia. Tal tradição prevê que a primeira statio tenha acontecido na Basílica de Santa Sabina na colina Aventino. As circunstâncias sugeriram reunir-se na Basílica Vaticana. Somos numerosos reunidos ao redor do Túmulo do Apóstolo Pedro também para pedir sua intercessão para o caminho da Igreja neste momento particular, renovando nossa fé no Pastor Supremo, Cristo Senhor. Para mim é uma ocasião propícia para agradecer a todos, especialmente aos fiéis da Diocese de Roma, neste momento em que estou para concluir o ministério petrino, e para pedir especial lembrança na oração.

As leituras que foram proclamadas nos oferecem ideias que, com a graça de Deus, são chamados a se tornarem atitudes e comportamentos concretos nesta Quaresma. A Igreja nos repropõe, antes de tudo, o forte chamado que o profeto Joel dirige ao povo de Israel: “Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos” (2,12). Sublinhamos a expressão “com todo o coração”, que significa do centro de nossos pensamentos e sentimentos, das raízes das nossas decisões, escolhas e ações, com um gesto de total e radical liberdade. Mas é possível este retorno a Deus? Sim, porque há uma força que não mora em nosso coração, mas que nasce do coração do próprio Deus. É a força da sua misericórdia. Diz ainda o profeta: “Voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo” (v.13). O retorno ao Senhor é possível como ‘graça’, porque é obra de Deus e fruto da fé que nós depositamos na sua misericórdia. Este retornar a Deus torna-se realidade concreta na nossa vida somente quando a graça do Senhor penetra no íntimo e o toca doando-nos a força de “rasgar o coração”. É ainda o profeta a fazer ressoar da parte de Deus estas palavras: “Rasgai o coração, e não as vestes” (v.13). Com efeito, também em nossos dias, muitos estão prontos a “rasgar as vestes” diante de escândalos e injustiças – naturalmente cometidos por outros -, mas poucos parecem disponíveis a agir sobre o próprio “coração”, sobre a própria consciência e sobre as próprias intenções, deixando que o Senhor transforme, renove e converta.

Aquele “voltai para mim com todo o vosso coração”, é ainda um apelo que envolve não só o particular, mas a comunidade. Ouvimos na primeira Leitura: “Tocai trombeta em Sião, prescrevei o jejum sagrado, convocai a assembleia; congregai o povo, realizai cerimônias de culto, reuni anciãos, ajuntai crianças e lactentes; deixe o esposo seu aposento, e a esposa, seu leito” (vv.15-16). A dimensão comunitária é um elemento essencial na fé e na vida cristã. Cristo veio “para reunir os filhos de Deus dispersos” (cfr Jo 11,52). O “Nós” da Igreja é a comunidade na qual Jesus nos reúne juntos (cfr Jo 12,32): a fé é necessariamente eclesial. E isto é importante recordá-lo e vivê-lo neste Tempo da Quaresma: cada um esteja consciente de que o caminho penitencial não se percorre sozinho, mas junto com tantos irmãos e irmãs, na Igreja.

O profeta, enfim, se detém sobre a oração dos sacerdotes, os quais, com lágrimas nos olhos, se dirigem a Deus dizendo: “Não deixes que esta tua herança sofra infâmia e que as nações a dominem. Por que se haveria de dizer entre os povos: ‘Onde está o Deus deles?’” (v.17). Esta oração nos faz refletir sobre a importância do testemunho de fé e de vida cristã de cada um de nós e das nossas comunidades para manifestar a face da Igreja e como esta face seja, muitas vezes, deturpada. Penso especialmente nas culpas contra a unidade da Igreja, nas divisões no corpo eclesial. Viver a Quaresma em uma mais intensa e evidente comunhão eclesial, superando individualismos e rivalidade, é um sinal humilde e precioso para aqueles que estão distantes da fé ou indiferentes.

“É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação!” (2 Cor 6,2). As palavras do apóstolo Paulo aos cristãos de Corinto ressoam também para nós com uma urgência que não admite ausências ou omissões. O termo “agora” repetido várias vezes diz que este momento não pode ser desperdiçado, ele é oferecido a nós como uma oportunidade única e irrepetível. E o olhar do Apóstolo se concentra sobre a partilha com a qual Cristo quis caracterizar sua existência, assumindo todo o humano até carregar o pecado dos homens. A frase de São Paulo é muito forte: Deus “o fez pecado por nós”. Jesus, o inocente, o Santo, “Aquele que não cometeu pecado”(2 Cor 5,21), carregou o peso do pecado partilhando com a humanidade o êxito da morte, e da morte de cruz. A reconciliação que nos é oferecida teve um preço altíssimo, o da cruz elevada sobre o Gólgota, sobre a qual foi pendurado o Filho de Deus feito homem. Nesta imersão de Deus no sofrimento humano e no abismo do mal está a raiz da nossa justificação. O “voltar a Deus de todo o coração” no nosso caminho quaresmal passa através da Cruz, o seguir Cristo sobre a estrada que conduz ao Calvário, ao dom total de si. É um caminho no qual se aprende cada dia a sair sempre mais do nosso egoísmo e dos nossos fechamentos, para dar espaço a Deus que abre e transforma o coração. E São Paulo recorda como o anúncio da Cruz ressoa em nós graças a pregação da Palavra, da qual o próprio Apóstolo é embaixador; um chamado para nós para que este caminho quaresmal seja caracterizado por uma escuta mais atenta e assídua da Palavra de Deus, luz que ilumina nossos passos.

Na página do Evangelho de Mateus, que pertence ao assim chamado Discurso da montanha, Jesus faz referência a três práticas fundamentais previstas pela Lei Mosaica: a esmola, a oração e jejum: são também indicações tradicionais no caminho quaresmal para responder ao convite de “voltar a Deus como todo o coração”. Mas Jesus destaca que seja a qualidade e a verdade da relação com Deus o que qualifica a autenticidade de cada gesto religioso. Por isso, Ele denuncia a hipocrisia religiosa, o comportamento que quer aparecer, as atitudes que buscam o aplauso e a aprovação. O verdadeiro discípulo não serve a si mesmo ou ao “público”, mas ao seu Senhor, na simplicidade e na generosidade: “E o teu Pai, que vê no escondido, te dará a recompensa” (Mt 6,4.6.18). O nosso testemunho então será sempre mais incisivo quando menos buscarmos nossa glória e formos conscientes que a recompensa do justo é o próprio Deus, o ser unido a Ele, aqui, no caminho da fé, e, ao término da vida, na paz e na luz do encontro face a face com Ele para sempre (cfr 1 Cor 13,12).

Queridos irmãos e irmãs, iniciemos confiantes e alegres o itinerário quaresmal. Ressoe forte em nós o convite à conversão, a “voltar para Deus com todo o coração”, acolhendo a sua graça que nos faz homens novos, com aquela surpreendente novidade que é participação à vida do próprio Jesus. Nenhum de nós, portanto, seja surdo a este apelo, que nos é dirigido também no austero rito, tão simples e ao mesmo tempo tão sugestivo, da imposição das cinzas, que daqui a pouco realizaremos. Nos acompanhe neste tempo a Virgem Maria, Mãe da Igreja e modelo de todo autêntico discípulo do Senhor. Amém!

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Catequese de Bento XVI sobre Santa Catarina de Gênova – 12 de Janeiro de 2011

Queridos irmãos e irmãs,

hoje, desejo falar-vos de outra Santa que leva o nome de Catarina, após Catarina de Sena e Catarina de Bolonha; falo de Catarina de Gênova, conhecida sobretudo por sua visão do purgatório. O texto que descreve sua vida e pensamento foi publicado na cidade liguresa em 1551; é dividido em três partes: a Vida propriamente dita, aDimostratione et dechiaratione del purgatorio [Demonstração e declaração do purgatório] – mais conhecida comoTrattato – e o Dialogo tra l’anima e il corpo [Diálogo entre a alma e o corpo]. O autor final foi o confessor de Catarina, o sacerdote Cattaneo Marabotto.

Catarina nasceu em Gênova, em 1447; última de cinco filhos, ficou órfã do pai, Giacomo Fieschi, quando ainda era pequena. A mãe, Francesca di Negro, deu-lhe uma válida educação cristã, tanto que a maior das duas filhas tornou-se religiosa. Aos dezesseis anos, Catarina foi prometida em casamento a Giuliano Adorno, um homem que, após várias experiências comerciais e militares no Oriente Médio, havia retornado a Gênova para se casar. A vida matrimonial não foi fácil, também pelo caráter do marido, inclinado aos jogos de azar. A própria Catarina foi induzida inicialmente a cultivar um tipo de vida mundana, na qual, contudo, não chegou a encontrar serenidade. Após dez anos, no seu coração havia um sentimento de profundo vazio e amargura.

A conversão iniciou em 20 de março de 1473, graças a uma experiência singular. Foi para a Igreja de São Bento e ao Mosteiro de Nossa Senhora das Graças, para confessar-se, e, ajoelhando-se diante do sacerdote, “recebeu – como ela mesma escreve – uma ferida no coração, de um imenso amor de Deus”, com uma visão tão clara de suas misérias e de seus defeitos e, ao mesmo tempo, da bondade de Deus, que quase desmaia. Foi tocada no coração por essa consciência de si mesma, da vida vazia que levava e da bondade de Deus. Dessa experiência nasce a decisão que orientou toda a sua vida, expressa nas palavras: “Não mais o mundo, não mais pecados” (cf. Vita mirabile, 3rv). Catarina, em seguida, fugiu, deixando em aberto a Confissão. De volta à casa, entrou no quarto mais escondido e chorou longamente. Naquele momento, foi instruída interiormente sobre a oração e teve consciência do imenso amor de Deus pelos pecadores, uma experiência espiritual que não conseguiu expressar em palavras (cf.Vita mirabile, 4r). É nessa ocasião que lhe aparece Jesus sofredor, carregando a cruz, como frequentemente é representado na iconografia da Santa. Poucos dias depois, retornou ao sacerdote para fazer finalmente uma boa Confissão. Começou aqui aquela “vida de purificação” que, por muito tempo, a fez experimentar uma constante dor pelos pecados cometidos e a levou a impor-se penitências e sacrifícios para mostrar a Deus o seu amor.

Nesse caminho, Catarina foi aproximando-se sempre mais do Senhor, até entrar naquela que é chamada “vida unitiva”, um relacionamento, isto é, de união profunda com Deus. Na Vita, é descrito que a sua alma era guiada e domesticada interiormente somente pelo doce amor de Deus, que lhe dava tudo aquilo de que tinha necessidade. Catarina abandonou-se de modo tão absoluto nas mãos do Senhor a ponto de viver, por cerca de vinte e cinco anos – como ela escreve – “sem mediação de nenhuma criatura, sendo somente por Deus instruída e governada” (Vita,117r-118r), alimentada sobretudo pela oração constante e pela Santa Comunhão, recebida diariamente, algo que não era comum no seu tempo. Somente muitos anos mais tarde o Senhor lhe deu um sacerdote que cuidasse de sua alma.

Catarina sempre foi relutante no confidenciar e manifestar a sua experiência de comunhão mística com Deus, sobretudo pela profunda humildade que experimentava frente às graças do Senhor. Somente a perspectiva de dar-Lhe glória e poder beneficiar o caminho espiritual de outros a levou a narrar aquilo que aconteceu com ela, a partir do momento da sua conversão, que é a sua experiência originária e fundamental. O local da sua ascensão aos vértices místicos foi o hospital de Pammatone, o maior complexo hospitalar genovês, do qual foi diretora e animadora. Ali, Catarina vive uma existência totalmente ativa, apesar dessa profundidade de sua vida interior. Em Pammatone, vai-se formando em torno a ela um grupo de seguidores, discípulos e colaboradores, fascinados por sua vida de fé e por sua caridade. O próprio marido, Giuliano Adorno, ali foi conquistado a deixar a sua vida dissipada, tornando-se terciário franciscano e transferindo-se ao hospital para dar o seu auxílio à mulher. O empenho de Catarina na cura dos doentes segue até o fim de seu caminho terreno, em 15 de setembro de 1510. Da conversão à morte não houve eventos extraordinários, mas dois elementos caracterizaram toda a sua existência: de um lado, a experiência mística, isto é, a profunda união com Deus, sentida como uma união esponsal, e, de outro, a assistência aos doentes, a organização do hospital, o serviço ao próximo, especialmente os mais necessitados e abandonados. Esses dois pólos – Deus e o próximo – preencheram totalmente a sua vida, transcorrida praticamente no interior dos muros do hospital.

Queridos amigos, não devemos nunca esquecer que, quanto mais amamos a Deus e somos constantes na oração, tanto mais conseguiremos amar verdadeiramente quem está ao nosso redor, quem nos é próximo, porque seremos capazes de ver em toda a pessoa o rosto do Senhor, que ama sem limites e distinções. A mística não cria distância com o outro, não cria uma vida abstrata, mas, mais que tudo, aproxima do outro, porque se começa a ver e agir com os olhos, com o coração de Deus.

O pensamento de Catarina sobre o purgatório, pelo qual é particularmente conhecida, é condensado nas últimas duas partes do livro citado no início: o Trattato sobre o purgatório e o Dialogo tra l’anima e il corpo [Diálogo entre a alma e o corpo]. É importante observar que Catarina, na sua experiência mística, nunca teve revelações específicas sobre o purgatório ou sobre almas que ali estão se purificando. Todavia, nos escritos inspirados de nossa Santa, é um elemento central e o modo de descrevê-lo tem características originais com relação à sua época.O primeiro traço original diz respeito ao “lugar” da purificação das almas. Em seu tempo, era representado principalmente com o recurso a imagens ligadas ao espaço: pensava-se em um certo espaço, onde se encontraria o purgatório. Em Catarina, ao contrário, o purgatório não é apresentado como um elemento de paisagem das vísceras da terra: é um fogo não exterior, mas interior. Esse é o purgatório, um fogo interior. A Santa fala do caminho de purificação da alma rumo à comunhão plena com Deus, partindo da própria experiência de profunda dor pelos pecados cometidos, em contraste com o infinito amor de Deus (cf. Vita mirabile, 171v). Sentimos no momento da conversão, onde Catarina sente de repente a bondade de Deus, a distância infinita da sua vida dessa bondade e um fogo queimando dentro de si mesma. E esse é o fogo que purifica, é o fogo interior do purgatório. Também aqui há um traço original com relação ao pensamento daquele tempo. Não se parte, de fato, do além para contar os tormentos do purgatório – como era usual naquele tempo e talvez ainda hoje – e depois indicar a via para a purificação ou a conversão, mas a nossa Santa parte da experiência exatamente interior da sua vida em caminho rumo à eternidade. A alma – diz Catarina – apresenta-se a Deus ainda ligada aos desejos e às penas que derivam do pecado, e isso torna impossível gozar da visão beatífica de Deus. Catarina afirma que Deus é tão puro e santo que a alma com as manchas do pecado não pode encontrar-se na presença da divina majestade (cf. Vita mirabile, 177r). E também nós sentimos o quanto estamos distantes, o quanto estamos cheios de tantas coisas, a ponto de não poder ver a Deus. A alma é consciente do imenso amor e da perfeita justiça de Deus e, por consequência, sofre por não ter respondido de modo correto e perfeito a tal amor, e exatamente o próprio amor a Deus torna-se chama, o amor mesmo a purifica das suas escórias do pecado.

Em Catarina, vemos a presença de fontes teológicas e místicas às quais era normal chegar em sua época. Em particular, encontra-se uma imagem típica de Dionísio, o Areopagita, aquela, qual seja, do fio de ouro que vincula o coração humano com Deus mesmo. Quando Deus purificou o homem, ele o liga com um sutilíssimo fio de ouro, que é o seu amor, e o atrai a si com um afeto tão forte que o homem fica como “superado e vencido e tudo foge de si”. Assim, o coração do homem é invadido pelo amor de Deus, que se torna o único guia, o único motor da sua existência (cf. Vita mirabile, 246rv). Essa situação de elevação a Deus e de abandono à sua vontade, expressa na imagem do fio, é utilizada por Catarina para expressar a ação da luz divina sobre as almas do purgatório, luz que as purifica e eleva aos esplendores dos raios fulgurantes de Deus (cf. Vita mirabile, 179r).

Queridos amigos, os Santos, na sua experiência de união com Deus, alcançam um “saber” tão profundo dos mistérios divinos, no qual amor e conhecimento se compenetram, que são auxílio aos próprios teólogos no seu empenho de estudo, de intelligentia fidei, de intelligentia dos mistérios da fé, de aprofundamento real dos mistérios, por exemplo, de o que seja o purgatório.

Com a sua vida, santa Catarina ensina-nos que quanto mais amamos a Deus e entramos em intimidade com Ele na oração, tanto mais Ele se faz conhecer e acende o nosso coração com o seu amor. Escrevendo sobre o purgatório, a Santa recorda-nos uma verdade fundamental da fé que se torna, para nós, convite a rezar pelos defuntos, a fim de que possam chegar à visão beatífica de Deus na comunhão dos santos (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1032). O serviço humilde, fiel e generoso que a Santa prestou por toda a sua vida no hospital de Pammatone, pois, é um luminoso exemplo de caridade para todos e um encorajamento especialmente para as mulheres que dão uma contribuição fundamental à sociedade e à Igreja com a sua obra preciosa, enriquecida pela sua sensibilidade e atenção com os mais pobres e mais necessitados. Obrigado.

Catequese de Bento XVI – 29/08/2012

Conversão de São Paulo

O apóstolo dos gentios e das nações nasceu em Tarso. Da tribo de Benjamim, era judeu de nação. Tarso era mais do que uma colônia de Roma, era um município. Logo, ele recebeu também o título de cidadão romano. O seu pai pertencia à seita dos fariseus. Foi neste ambiente, em meio a tantos títulos e adversidades, que ele foi crescendo e buscando a Palavra de Deus.

Combatente dos vícios, foi um homem fiel a Deus. Paulo de Tarso foi estudar na escola de Gamaliel, em Jerusalém, para aprofundar-se no conhecimento da lei, buscando colocá-la em prática. Nessa época, conheceu o Cristianismo, que era tido como um seita na época. Tornou-se, então, um grande inimigo dessa religião e dos seguidores desta. Tanto que a Palavra de Deus testemunha que, na morte de Santo Estevão, primeiro mártir da Igreja, ele fez questão de segurar as capas daqueles que o [Santo Estevão] apedrejam, como uma atitude de aprovação. Autorizado, buscava identificar cristãos, prendê-los, enfim, acabar com o Cristianismo. O intrigante é que ele pensava estar agradando a Deus. Ele fazia seu trabalho por zelo, mas de maneira violenta, sem discernimento. Era um fariseu que buscava a verdade, mas fechado à Verdade Encarnada. Mas Nosso Senhor veio para salvar todos.

Encontramos, no capítulo 9 dos Atos dos Apóstolos, o testemunho: “Enquanto isso, Saulo só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor. Apresentou-se ao príncipe dos sacerdotes e pediu-lhes cartas para as sinagogas de Damasco, com o fim de levar presos, a Jerusalém, todos os homens e mulheres que seguissem essa doutrina. Durante a viagem, estando já em Damasco, subitamente o cercou uma luz resplandecente vinda do céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: ‘Saulo, Saulo, por que me persegues?’. Saulo então diz: ‘Quem és, Senhor?’. Respondeu Ele: ‘Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro te é recalcitrar contra o aguilhão’. Trêmulo e atônito, disse Saulo: ‘Senhor, que queres que eu faça?’ respondeu-lhe o Senhor: ‘Levanta-te, entra na cidade, aí te será dito o que deves fazer'”.

O interessante é que o batismo de Saulo é apresentado por Ananias, um cristão comum, mas dócil ao Espírito Santo.

Hoje estamos comemorando o testemunho de conversão de São Paulo. Sua primeira pregação foi feita em Damasco. Muitos não acreditaram em sua mudança, mas ele perseverou e se abriu à vontade de Deus, por isso se tornou um grande apóstolo da Igreja, modelo de todos os cristãos.

São Paulo de Tarso, rogai por nós!

Canção Nova – http://www.cancaonova.com

Tempo de crescer

“Crê em Deus, e ele cuidará de ti; espera nele, e dirigirá os teus caminhos; conserva seu temor, e nele permanece até à velhice (…).” (Eclo 2,1-6)

Ao acalmar a tempestade, Ele se direciona para os discípulos e ali mesmo proporciona a eles uma formação. Faz uma pergunta: “Por que sois tão medroso?”

O medo nasce automaticamente no coração de quem se vê sozinho, desamparado, e se sente “órfão do Pai do céu”. Aqueles discípulos estavam apavorados porque ainda não haviam encontrado Jesus na parte de trás do barco. Eles até sabiam “teoricamente” da presença de Jesus no barco, mas, de fato, precisavam fazer uma experiência da presença ativa de Jesus e do seu Senhorio em suas vidas. É incompreensível que ainda hoje muitos cristãos vivam sua fé apenas na teoria, sem ter um encontro pessoal com Jesus, que pode sustentá-los no tempo de tribulação.

Para o cristão, a passagem pela tribulação é uma oportunidade de vivenciar uma conversão pessoal, a partir de um esvaziamento de si mesmo (processo kenótico), para estar cheio de Deus. Aprender a lidar com as tribulações e sofrimentos é um credenciamento necessário para o seguimento de Cristo. Ele disse: “Se alguém que vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me” (Lc 9,23). Trata-se de uma exigência do Senhor para os que querem segui-Lo; e Ele não abre exceção para ninguém, “Quem não carrega sua cruz e não caminha após mim, não pode ser meus discípulo”(Lc 14,27). Jesus não fez propaganda enganosa de um “cristianismo light e frouxo”, e sim deixou claro que deveríamos tomar a cruz a cada dia; aquela cruz que tantas vezes é motivo de reclamação, mas que Ele mesmo avisou que existiria. Perceba que os ensinamentos de Jesus são válidos até hoje para mim e para você. Ele não enganou ninguém a respeito das exigências necessárias para ser um discípulo, um verdadeiro cristão.

É admirável a capacidade de sacrifício voluntário de tantas pessoas que possuem o objetivo de ganhar uma corrida, uma partida de futebol , um concurso de beleza, não medindo esforços para isso. Entretanto, quando esse mesmo empenho é exigido na sua fé, as desculpas sempre aparecem, e ainda há quem diga que muita dedicação é sinal de fanatismo, o que nunca é dito quando se trata de novelas, barzinhos, jogos, Internet, carros, cosméticos e tantas outras coisas. Jesus, porém, proporcionou aos Seus discípulos segurança para o enfrentamento dessas realidades tão exigentes.

Um das frases mais repetidas por Jesus aos Seus discípulos, quando lhes ministrava um ensinamento, foi: “Não tenhais medo”. Foi assim que Jesus exortou Pedro a ter coragem de caminhar sobre as águas do mar em tempestade:

“Quando os discípulos o viram andando sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: “É um fantasma!” E gritaram de medo. Mas Jesus logo lhes falou: “Coragem! Sou eu, não tenhais medo!” (Mt, 14,26).

Trecho do livro “Fortes na Tribulação” de Padre Fabrício.

(Canção Nova – http://www.cancaonova.com)

A busca da santidade

A Santidade Cristã, consiste na união com Cristo: Verbo Encarnado e Verbo Redentor, único mediador entre Deus e os homens e fonte de toda graça e santificação.

A santificação do homem consiste em estar unido a Deus na forma devida, mas o sentido específico, só são chamados “santos” os seres pessoais, os que são dotados de inteligência e vontade que lhes permitem por em prática e realizar sua união com Deus de forma consciente e livre.

Aí é que o conceito de santidade aparece na sua verdadeira riqueza, como realidade vivida deliberadamente, que penetra a existência da pessoa justamente porque, com a riqueza do seu ser e com a espontaneidade de sua vontade livre, se une a Deus entregando-se a Ele com o calor do amor.

Da parte de Deus, Jesus veio realizar de fato esta união do ser humano com Deus, pela Graça, e por isso, todos nós somos chamados à santidade e segundo as palavras do Apóstolos: “Porquanto, esta é a vontade de Deus, a nossa santificação (I Ts 4, 3; Ef. 1, 4).

A santidade depende da nossa união com Deus, e desde o Antigo Testamento, o povo compreendeu esta realidade, de modo que chamava “santo”, tudo aquilo que entrava em contato com Deus como objetos, lugares e pessoas.

Cristo veio, “para que todos tenham vida, e a tenham em abundância”, isto é, para dar aos homens sua vida divina, a fim de que eles possam entregar-se e unirem-se a Deus não mais como simples seres humanos, e sim como pessoas introduzidas e elevadas à intimidade sobrenatural, com as características e riquezas típicas de quem participa da vida divina. Isto é o que chamamos de santidade ontológica.

Mas como buscar esta santidade? Sabemos que não somos capazes de atos santos, sabemos entretanto, que a medida que renunciamos à vida natural e pecadora a qual herdamos de Adão, renunciarmos também a satanás e as suas e as suas obras, para vivermos segundo Cristo, para vivermos a vida de Jesus Cristo, de modo que aos poucos, Jesus vá ocupando todas as áreas do nosso ser, para que Ele viva em nós, aja em nós e por nós.

Através do Batismo, recebemos a Graça Santificante, e isto nos dá uma identificação com Cristo e nos torna capazes de viver realmente a vida de Cristo.

Para o apóstolo Paulo, os cristãos devem como Cristo (porque “só Cristo”), até alcançarem a plenitude na maternidade em Cristo, a ponto de dizerem como Paulo: “Vivo, porém não eu, mas é Cristo que vive em mim”.

Em todos nós batizados, deve haver uma postura na qual expresse a mesma atividade de Jesus para um Deus Pai, submetendo-se livremente à ação do Espírito Santo.

O que Cristo operou em nós através do Batismo, é necessário que assumamos conscientemente, e testemunhamos com nossas vidas.

Portanto, a vida inicial de santificação é realizada pelo Espírito Santo mediante o nosso Batismo, e é a partir dessa promessa que devemos viver “segundo o Espírito” e não “segundo a carne”, quando buscamos a santidade. Sozinha na luta para ser santo, a vontade do homem será derrotada. Só muita graças ao Espírito de Deus a vontade do homem é vitoriosa e o capacita-o para ser santo.

A atividade do cristão que se deixa conduzir é verdadeiramente uma atividade do Espírito Santo dentro dele, do que propriamente sua.

Ele já ama com suas próprias forças mas com a de Cristo. Todas as suas obras, suas orações e iniciativas apostólicas, a vida conjugal e familiar, o trabalho cotidiano, o descanso e as próprias provações e tribulações, são suportadas facilmente e se tornam instrumentos de conversão e renovação interior do homem, de cristificação e mais ainda, de passos concretos em busca da santidade.

(Comunidade Católica Shalom – http://www.comshalom.org)