Reconciliai-vos com Deus – Convite a experimentar a Misericórdia

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Estamos nos aproximando da Semana Santa. O tempo da Quaresma, como caminhada de conversão e penitência rumo à Páscoa, tem como um belo e importante sinal visível dessa caminhada de “metanóia” a celebração do sacramento da Penitência. Somos chamados a fazer a experiência da misericórdia de Deus em nossas vidas. Para isso, somos iluminados pela Palavra de Deus e a ação do Espírito Santo para que, aprofundando a nossa realidade de pecado, experimentemos ainda mais a graça que nos vem pelo amor derramado em nossos corações em Jesus Cristo, nosso Senhor.

O pecado é o ato voluntário de quem se afasta da comunicação com a graça divina. Mas o sacramento da Reconciliação, ou Confissão, como também se pode chamar, vem reatar os laços da pessoa com Deus. Quando Jesus inicia sua vida pública, anuncia um convite à penitência: “porque o Reino de Deus está próximo”. Isto já se dá no momento do seu batismo, e, convida o precursor, São João Batista, para que continue nesta pedagogia divina. Sabemos que as consequências do pecado vão longe, não só em nossas vidas, mas também na própria vida social.

A Penitência é a ação que nos conduz a uma vida nova e a viver em oração e fidelidade ao Evangelho e, por isso, somos chamados a uma vida de conversão para prevenir contra as faltas no futuro. Podemos ver nas cartas paulinas quão inúmeras vezes o Apóstolo Paulo exorta as comunidades à reconciliação. Vale lembrar das consequências do pecado na vida da pessoa humana, nos relacionamentos e no próprio tecido social.

A Igreja recomenda confessar-se pelo menos pela Páscoa da Ressurreição, mas este sacramento deve ser buscado sempre que houver alguma transgressão à Lei Divina. Ou seja, pelo exame de consciência, o ser humano saberá da necessidade de buscar a reconciliação. Quanto mais somos iluminados pela Palavra e quanto mais perto do Senhor, mais enxergamos nossos pecados. Deus não condena o pecador, mas repudia o pecado. Basta recordar o capítulo 15 de São Lucas e tantos outros trechos do Evangelho, que nos falam da alegria do pecador arrependido. Deus é sempre justo e misericordioso, e como Pai bondoso sempre espera o retorno de seu filho amado, obra de Sua vontade para você existir no mundo. Lembre-se: você é querido, amado e pensado por Deus! O retorno ao amor de Deus transforma os corações, os pensamentos e comportamentos daquele que caminha como uma nova pessoa, deixando para trás tudo o que fazia parte do velho homem.

Pela razão e pela fé, vemos no pecado o pior dos males; por isso há a necessidade de conversão e reconciliação, na busca do sacramento da Confissão, que religa a alma humana à graça divina. Na prática, após a confissão, o penitente deve ter a clara consciência de suas atitudes e/ou lugares que põem sua alma em risco. A nova vida o leva a ter novas atitudes.

Às vezes acontece que numa confissão regular, mensal, por exemplo, o “penitente” possa ficar preso em um impasse. Isso ocorre quando se nota que na confissão a rotina dos pecados é a mesma. Ele tem uma boa vontade, ele vê seus pecados, sempre se arrepende, e decide melhorar. E até agora nada. Cada vez é a mesma coisa. Esta situação pode causar frustração. Pois nada realmente mudou na minha vida espiritual? E o penitente se questiona: Eu sou moralmente tão corrupto? Ou talvez eu seja apenas um que não sirvo para nada?

Cada momento é uma nova oportunidade de caminhada, na direção à comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs. Torna-se necessário rever nosso estilo de vida. Encontrar as raízes de nosso pecado. É importante rezar todos os dias e, para isso, é necessário intimidade, um lugar que é o meu espaço pessoal para o encontro com Deus e comigo mesmo. Tendo um lugar de oração é mais fácil manter a regularidade e o tempo de meditação e reflexão. São Bento sempre dizia “Ora et labora”, que quer dizer: “oração e trabalho!”

E quem pode se esquecer do momento em que Jesus, pregado na cruz, dialoga com um famoso ladrão também pregado ao lado dele? “Mestre, quando estiver no Reino de Deus, lembra-se de mim!” e Jesus responde: “Ainda hoje estarás no paraíso comigo!” Existe maior prova de amor e misericórdia que isso? Mesmo sangrando e perfurado pelos pregos, lá na cruz, Jesus estende seu gesto de misericórdia. Daí, podemos perceber como que, de fato, o amor de Deus se estende e sua misericórdia transcende. E o soldado, aos pés da cruz, que exclama: “Este Homem é, de fato, o Filho de Deus!”

Por isso, o rito da Confissão é um ato que leva à justiça para com Deus, nos reincorpora em Jesus, retomando a nossa veste batismal, pois somos unidos como ramos à videira pelo próprio sacramento do Batismo.

Caríssimos, estamos já bem próximos da Páscoa do Senhor. Em todo o mundo é um período privilegiado para a aproximação ao sacramento da confissão. Não deixe de visitar sua paróquia ou comunidade e verificar o calendário dos mutirões de confissão. Reconciliação com Deus, neste sacramento, é o abraço Dele de acolhida ao filho ou filha. Sinta, depois disso, o alívio em seu coração e comungue com leveza de coração!

Santa Páscoa a todos! Rezem pela nossa santa Igreja e pelo nosso Papa Francisco, neste novo período que iniciamos. Deus dê a todos uma santa continuação da Quaresma e os abençoe!

Dom Orani João Tempesta
Arcebispo Metropolitano do Rio de Janeiro

Fonte: Canção Nova – http://www.cancaonova.com

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Quaresma, um novo recomeço

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A grande beleza do caminho da Quaresma é chegar à Pascoa renovados. Para isso é preciso uma decisão interior.
Nesse tempo, Jesus nos convida a amadurecermos nosso coração e olharmos para trás, a fim de ver que caminhamos em busca da perfeição e conseguimos alguma conversão.
Este tempo sempre tem algo novo. Assim, vamos continuar com as mesmas características, porém podemos viver uma conversão a partir da decisão interior.
Para recomeçar a caminhada em Deus, primeiramente precisamos nos levantar diante da queda, pois o demônio age de duas formas: na fraqueza e na fragilidade; depois disso, ele continua pisando  em nós para que continuemos caídos. Por isso temos de continuar firmes em Deus.
Fale para Deus: “Senhor, que mesmo diante das dificuldades, com Sua graça, eu possa me levantar”.
E Jesus, vendo a fé deles, disse ao paralítico: ‘Filho, perdoados estão os teus pecados” (Marcos 2,5).
O Senhor vê o esforço que fazemos para nos encontrarmos com Ele, porque nossa alma anseia por Seu amor.
Muitas vezes, não temos fé nem trilhamos o caminho de santidade. Nesse tempo, somos jogados de um lado para o outro, mas não podemos viver assim, porque temos de amadurecer e buscar nosso Deus para que possamos permanecer firmes n’Ele.
Contudo, às vezes, perdemos a oportunidade de alicerçar nossa vida em Jesus Cristo. Ele é a medida para tudo.
Se temos uma fé adulta e madura, é porque estamos firmes na amizade com Cristo, pois o Cristianismo não é outra coisa senão um encontro com Deus, por isso precisamos colocá-Lo na nossa vida, no nosso trabalho e na nossa família. Ele é o centro de todas as coisas.
É preciso crer em Jesus, e para isso temos de ter um encontro com o Senhor, para que Ele possa resgatar nossas famílias.
Na nossa vida, muitas vezes, temos “paralisia interior”, ou seja, a alma já não sente nada, estamos sem emoção, sem fé. Temos de ter a coragem, nesta Quaresma, de nos decidirmos, interiormente, para que possamos crescer e progredir no Senhor. Portanto, se buscamos Deus e estamos inundados de Seu amor, temos de ter forças para levar a Luz para nossa casa e para o mundo. Afinal, o demônio nos aprisiona nos pequenos pecados como a inveja, o palavrão. É preciso buscarmos a reconciliação e a confissão. Neste tempo de Quaresma, Jesus quer nos podar para que possamos crescer e amadurecer em Cristo e, assim, dar mais frutos.
Se, neste tempo, Jesus caminhou 40 dias no deserto, vamos trilhar o caminho junto com Ele, pois precisamos ter a coragem de ser melhor. Neste ano, façamos o propósito de melhorar no casamento e na família,. Temos que pedir forças ao Senhor para cumprir nossas metas, porque, assim, teremos coragem de levantar e sair do comodismo para que Jesus Cristo possa renovar nossa vida.

Senhor, dê-nos a graça de levantar e sair do nosso comodismo!

Emanuel Stênio
(Canção Nova – http://www.cancaonova.com)

Rompa com o pecado!

Precisamos ser decididos! O grande mal é levarmos a nossa vida no “mais ou menos”. A decisão de romper com o pecado cabe a nós, e Deus está presente, com toda Sua graça, para nos liberar desse mal. Decida-se: PHN! Por hoje não vou mais pecar. Esta é a primeira posição de todo guerreiro: romper com o pecado e, depois, a cada novo dia tomar a decisão: “Por hoje eu não vou mais pecar!”

Você precisa lutar e chegar íntegro a Deus Pai. O céu é para os decididos, para os violentos; o inferno é para os moles, os fracos e indecisos. Se cairmos durante a caminhada, a solução ideal é o arrependimento. Arrependa-se imediatamente, pois temos um Defensor, um Advogado de defesa diante do Pai: Jesus Cristo, o justo. Ele é vítima de expiação por nossos pecados e os do mundo inteiro.

Ninguém ficará aqui na terra eternamente. Seremos transplantados para o lugar daquele a quem servimos. Ou servimos a Deus, nosso Pai, ou servimos ao príncipe deste mundo, que é um traidor, um usurpador, que quer roubar os filhos de Deus. Não é possível servir aqui o príncipe deste mundo e esperar que sejamos transplantados para a casa de Deus, o céu. Queiramos ou não, iremos para os braços daquele a quem servimos nesta vida. Felizmente, você não tem um lugar reservado no inferno. Você só irá para lá se quiser e teimar! Portanto, tenha os olhos sempre voltados para o Alto, onde está o seu tesouro, o lugar eterno que Deus tem para você.

A nossa meta deve ser romper com o pecado e seguir a Deus. Investir a vida naquilo que é definitivo: a nossa morada no céu.

(Canção Nova ;D Monsenhor Jonas Abib – Formação)

Só a Radicalidade tem Sentido

Lembro-me como se fosse hoje. Era o ano de 1986. Na pequena sala de tacos escuros da primeira casa comunitária, o Moysés, com o tradicional bermudão frouxo que os rapazes usavam naquela época, nos falava sobre o seguimento de Jesus de uma forma nova e surpreendente. Lembro-me de ter pensado: “Mas como é que ele conseguiu perceber tudo isso?” Era a graça especial dos primeiros tempos, tempos de fundação, tempo que vivemos ainda hoje e que viveremos enquanto o fundador e a co-fundadora estiverem vivos. Sim, vivemos tempos de graça. Somos bem-aventurados por vivermos este tempo na Igreja e na vocação.

O assunto do ensino daquela manhã quando nos sentávamos no chão por falta de cadeiras – e não éramos mais que cinco – era o seguimento de Jesus. O texto, Lc 14, 25-35:

“ Muito povo acompanhava Jesus. Voltando-se, disse-lhes: ‘Se alguém vem a mim, e não odeia seu pai, sua mãe,sua mulher,seus filhos, seus irmãos, suas irmãs, sim, até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. E quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo. Quem de vós querendo fazer uma construção, antes não se senta para calcular os gastos que são necessários, afim de ver se tem com que acabá-la? Para que,depois que tiver lançado os alicerces, e não puder acabá-la, todos os que o virem não comecem a zombar dele,dizendo: Este homem principiou a edificar, mas não pôde terminar. Ou qual é orei que, estando para guerrear com outro rei, não se senta primeiro para considerar se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil? De outra maneira, quando o outro ainda está longe, envia-lhe embaixadores para tratar da paz.Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia tudo o que possui não pode ser meu discípulo.

O sal é uma coisa boa; mas se ele perder o sabor, com que o recuperará? Não servirá nem para a terra nem para o adubo, mas lançar-se-á fora. O que tem ouvidos para ouvir, ouça!”

Naquela época, a radicalidade evangélica era – como será sempre em nossa vocação – essencial. Além de essencial, porém, era viva, muito viva. Viva e vivenciada sem descuido, à risca. Significava, antes de qualquer coisa, uma verdade evidente, embora tantas vezes descurada:

Seguir Jesus é deixar tudo e todos. Deixar todo o resto.

Deixar todos os outros que não Ele.

Muito povo acompanhava Jesus. Voltando-se, disse-lhes: “Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.

Como isso era vivo para nós, os primeiros! Éramos os primeiros a sermos chamados a, literalmente, deixar para trás pai, mãe, mulher, marido, filhos, irmãos, irmãs e a própria vida. Ninguém antes de nós havia deixado tanta coisa para uma aventura completamente inesperada.

Hoje, sabemos muito bem o que é uma Comunidade Nova. João Paulo II falou desta realidade no Pentecostes de 98 em plena Praça de São Pedro e em seus documentos. A Igreja, hoje, reconhece várias comunidades novas a nível pontifício e a nossa está em processo de reconhecimento. Nosso fundador é convidado para o Sínodo sobre Eucaristia, para importantes eventos no Pontifício Conselho dos Leigos e para o lançamento do documento papal Deus Charitas Est.

Naquela época, iniciávamos uma aventura rumo ao desconhecido. Não sabíamos para onde estávamos indo, nem se a Igreja nos acolheria. Pelo contrário, por toda parte nos chamavam de loucos e setores da Igreja, alguns muito ligados a nós, desencorajavam nossa opção e não nos poupavam de perseguições e falatórios.

Deixávamos tudo por uma incerteza. Trocávamos nossos queridos por uma incógnita. Abandonávamos nossos estudos e trabalhos por uma aventura. Era isso, sim, mas aos olhos dos homens. Aos olhos de Deus – e, creia, naquela época estávamos cheios de Deus, cheios de entusiasmo, dispostos a dar a vida por Jesus! – aos Seus olhos e aos nossos, deixávamos todos e tudo por… Jesus, o Ressuscitado, o Cristo Vivo que havíamos experimentado no Batismo no Espírito Santo e que, através do Moysés nos propunha um seguimento radical, ainda que não soubéssemos para onde íamos ou se receberíamos alguma coisa em troca do que havíamos deixado. Era a fé a nos dar a certeza do incerto; a esperança a nos dar a certeza de que Deus tinha planos para nós, a caridade a queimar nosso coração de amor esponsal.

A exigência de Deus era clara: era preciso deixar tudo. A pregação do Moysés, muito explícita: a vocação Shalom exigia o deixar tudo, supunha o seguimento radical de Jesus Cristo. E isso ele pregava veementemente ungido, na pequena sala da República do Líbano para os seus cinco primeiros discípulos.

E quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo.

Como sempre, estava presente a eterna discussão acerca do que seria esta cruz. Em sua pregação, o Moysés deixava claro: era crucificar nossos planos, nossos desejos, nossa vontade, nossas afeições desordenadas, nosso amor a nós mesmos; crucificar tudo o que não fosse Jesus. Carregar tudo isso como uma cruz, renunciando a todo direito pelo privilégio incomparável de ser discípulo de Jesus.

Hoje em dia, de vez em quando me pego a comparar a qualidade do seguimento de Jesus que eu tinha naquela época e que tenho hoje. Que diferença! Hoje, cercada de seguranças, será que ainda é por Jesus que deixo tudo? Será que ainda carrego a cruz de morte de minha carne, desejos, planos, vontade, afeições desordenadas, amor a mim mesma? Cercada de milhares de irmãos pelo mundo inteiro, contando com o aval da Igreja e o reconhecimento da RCC, ainda vivo a radicalidade evangélica que requer absolutamente a prioridade radical de amor a Jesus Cristo deixando tudo e todos para trás?

Hoje, paparicada em meio a palestras, cursos, livros, rádio, tv, ainda mantenho a radicalidade de deixar tudo, absolutamente tudo para ser unicamente de Jesus e para segui-lo radicalmente, isto é, para ser radicalmente igual a ele? Cercada pelas estruturas da Obra e da Comunidade, tendo a identidade do Carisma melhor definida, com os pés nos Estatutos e nas Regras reconhecidas, já sabendo de onde vim e para onde vou, mantenho o mesmo nível de radicalidade, de amor esponsal, de desejo ardente de ser pobre como Jesus, casta como Jesus, obediente como Jesus, Paz como Jesus?

A grande surpresa da pregação do Moysés, entretanto, viria com o texto a seguir. Aliás, foi por este trecho que ele iniciou seu ensino, só depois voltando ao início da passagem. Vejamos:

Quem de vós, querendo fazer uma construção, antes não se senta para calcular os gastos que são necessários a fim de ver se tem com que acabá-la? Para que, depois que tiver lançado os alicerces e não puder acabá-la todos os que o virem não comecem a zombar dele, dizendo: Este homem principiou a edificar, mas não pode terminar. Ou qual é o rei que, estando para guerrear com outro rei, não se senta primeiro para considerar se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil? De outra maneira, quando o outro ainda está longe, envia-lhe embaixadores para tratar da paz.

O Moysés enfatizava bem que as ponderações de que fala o Evangelho, vinham antes de se tomar a decisão. Ou seja, antes de nos aventurarmos no desconhecido de seguir Jesus em uma comunidade, deveríamos pensar bem se estávamos dispostos a construir paredes imponderáveis sobre alicerces invisíveis, sem nenhuma segurança de que elas iriam sustentar-se de pé. Enfatizava, em sua pregação, que ainda que fôssemos reis todo-poderosos, deveríamos estar conscientes de que entrávamos para uma batalha humana e espiritual que não só duraria para sempre – e naquela época era comum citarmos Provérbios Se entrares para o serviço de Deus, prepara tua alma para a provação.

Tínhamos muito em mente que nos metíamos em uma batalha espiritual que duraria enquanto vivermos. O Moysés, por sua vez, deixava claro quem eram os inimigos que iríamos combater: a nós mesmos, nossa carne, nossos desejos, nosso amor próprio, nossos planos, nossas concupiscências, nosso desejo de ser como o mundo, nossa vontade de voltar atrás. Seria uma batalha desigual: dez mil contra vinte mil do inimigo.

“Quem amar a si mesmo”, dizia ele, “mesmo que seja só um pouco, não tem chances de vencer a batalha. Vai ter sempre a tentação de enviar embaixadores ao inimigo para conversações em vistas de uma falsa paz, de uma paz passageira que o inimigo e o mundo podem dar. No entanto, quem decidir não amar a si mesmo acima de Jesus, do mundo e de seus queridos, continuará na batalha, mas encontrará a Paz que é o próprio Jesus e que só ele dá. Cristo é a nossa paz!”, finalizava ele, citando passagem que, na época tínhamos como o texto de nossa vocação, uma vez que o Espírito não nos havia ainda inspirado e explicado Jo 20,19, o que só viria a ser registrado quando da elaboração dos Estatutos.

Hoje, vinte anos depois, é fácil constatar como ele tinha razão e como era profético seu ensinamento. Vemos que aqueles que antes de entrar para a comunidade tomaram a decisão pelo seguimento radical de Jesus Cristo têm nela o alicerce de sua casa e a vitória de sua batalha. Muitos, porém, que entram por fantasia ou com outras motivações, não terminaram de construir a casa ou acabam por contemporizar com o inimigo e com o mundo. Pouco a pouco os projetos pessoais, os desejos não crucificados, a amizade com os valores do mundo corroem seus poucos tijolos e tiram a força de seus soldados.

Uma blusa com ou sem manga, uma comunhão de bens doada ou retida, uma saída à noite para um lugar devido ou indevido, de per si parecem inofensivos. Vistos sob a perspectiva da radicalidade evangélica que nossa vocação exige, porém, tornam-se arma de batalha, argamassa forte que une tijolos sem deixar brechas. Uma simples renúncia a uma cava, à compra de um bem supérfluo, a uma diversão mundana, pode fazer a tremenda diferença entre uma vocação vivida até o final da vida ou abandonada pela metade da caminhada.

Decidir-se a não contemporizar ou, para utilizar a linguagem de São Paulo, não ter amizade com o mundo, com nossos projetos pessoais, com nossa carne, com as concupiscências, é o passo essencial para quem quer viver a vocação Shalom que exige, absolutamente, a radicalidade evangélica. Sem a radicalidade evangélica, sem o seguimento radical de Jesus em sua maneira de viver, em sua pobreza, obediência, castidade não existe a vivência da vocação Shalom. Sem seguir radicalmente a Jesus em sua incansável parresia; em seu tomar a cruz, renunciando, ao tomá-la por amor, a todos os seus direitos de Deus e de homem, não se vive a vocação Shalom.

A grande tentação é contemporizar. Tentar harmonizar o seguimento de Jesus e os projetos pessoais, gostos, desejos, reivindicações de direitos, desobediência velada, pobreza aparente, castidade mitigada. Sim, esta é a grande tentação. Ela começa a aparecer sorrateiramente, disfarçada de boas intenções e se instala em uma vivência morna e mitigada que ameaça a vocação de todos. Tudo o que é morno, tudo o que é mitigado, tudo o que é contemporizado vai de encontro à nossa vocação. Isso o Moysés já havia deixado bem claro ao escrever Obra Nova com sua admoestação aos covardes e sua exortação à radicalidade e à renúncia até o sacrifício dos belos galhos verdes.

Nos inícios, era bem mais fácil enxergar os perigos, contar os dez mil inimigos que ultrapassavam nossas tropas, contabilizar a quantidade de tijolos, medir a resistência dos alicerces. Com o crescimento da comunidade, tudo isso se dilui e nos coloca na contingência da re-escolha da radicalidade absoluta. Como finalizou o Moysés, há vinte anos:

Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo.

Você não conseguiria ouvi-lo dizer:

“Assim, pois, isto é, desta forma e somente desta forma, não de outra forma, mas desta forma, qualquer um de vós – qualquer um, você ou eu, qualquer um de nós – que não renuncia a tudo, tudo, não a metade, não a uma parte, mas tudo, tudo o que tem, tudo o que é… tudo! Não pode ser discípulo de Jesus. Não tem como segui-lo. Não tem como ser como Ele, que deixou tudo para seguir a vontade do Pai. Não tem como viver a magnífica vocação que Nosso Senhor nos deu! Esta vocação exige, exige a radicalidade evangélica, exige o sacrifício de nós mesmos, de tudo o que somos e temos, exige o seguimento radical de Jesus Cristo Nosso Senhor.

Por isso, pense bem antes para não desistir depois. Conte seus tijolos, verifique sua argamassa, conte suas tropas e jamais, jamais contemporize com o mundo, com a carne, com o mal, com você mesmo! Jamais! Do contrário, o sal perderá o seu sabor, pois:

O sal é uma coisa boa, mas se ele perder o seu sabor, com que o recuperará? Não servirá nem para a terra nem para adubo, mas lançar-se-á fora.

Não percamos nosso sabor. Ele não é nosso. É de Deus. É Deus quem no-lo dá. Não percamos a radicalidade evangélica. Do contrário, nossa vocação não servirá para a nada, nem para nós mesmos, nem para a humanidade e acabaremos, nós mesmos, por lançá-la fora, por desperdiçá-la tristemente.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!

Amém. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!”

As palavras podem ser as que nosso fundador usaria atualmente. A memória pode me trair. No entanto, atesto que, há vinte anos, sob os arcos da Maria Tomásia, para a comunidade de Aliança e, anteriormente, na pequena sala da República do Líbano, para a comunidade de Vida, foi isso o que pregou o Moysés sobre Lc 14, 24-35, explicando que era preciso a decisão de tudo deixar antes de aventurar-se, repetindo o que havia escrito em Obra Nova. Sim, foi isso o que ele nos ensinou, afirmando que na vocação Shalom, ou vivíamos a radicalidade evangélica do seguimento de Jesus Cristo, ou não viveríamos a magnífica vocação a que Deus nos chama.

(Comunidade Católica Shalom – http://www.comshalom.org)

Conhecer a verdade sobre si mesmo

Aderir ao Projeto de Deus é mergulhar em uma via de amor que, em meio aos desafios inerentes ao caminhar rumo ao desconhecido, nos leva a profundas descobertas de quem somos de fato, da nossa verdade, e na descoberta da verdade encontramos a Deus que é a Verdade absoluta.

Santo Agostinho, no seu livro “Confissões”, diz: “Onde encontrei a verdade, aí encontrei o meu Deus, que é a própria verdade, da qual nunca mais me esqueci, desde o dia em que a conheci”. É este encontro com Deus que nos tira das nossas cegueiras espiritual e humana e nos leva a descobrir a verdade que muitas vezes, ou quase sempre, nos é dolorosa pelo fato de nos vermos como realmente somos: pecadores, fracos, lentos, imperfeitos, miseráveis até.

Mas ao nos depararmos com a verdade de como somos, as nossas trevas são dissipadas e o amor misericordioso de Deus vem ao nosso encontro para curar as feridas que trazemos em nós, que foram causadas pelo pecado, pela má educação e pela imposição da mentalidade do mundo com suas inverdades que nos seduzem e nos tiram a essência de quem nós realmente somos e nos aprisionam e alienam. Mas Deus, pleno em amor, nos envia o seu Espírito Santo – o Espírito da Verdade – que vem até nós e nos liberta das mentiras do mundo e de tudo o que nos escraviza, enfim, nos faz verdadeiramente livres.

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).

Aqui estão alguns questionamentos para lhe auxiliar na reflexão sobre tudo o que você traz dentro de si que pode ser ilusório, mentiras, farsas, máscaras, feridas… enfim, tudo o que é peso, grilhão, corrente, e que lhe escraviza, não permitindo que você dê passos largos no caminho da felicidade.

Se pergunte hoje em oração, diante de Deus:

Quem sou eu, de fato?

O que penso de mim?

Qual é o meu maior bem, meu tesouro?

Onde está meu coração?

Sou feliz? Quem ou o que é minha felicidade?

O que tenho por verdade hoje? Isto é, de fato, verdade?

O que ou quem é Deus na minha vida hoje?

Não tema sua verdade, não tenha medo de se apresentar diante de Deus como você verdadeiramente é. Dê a você mesmo a oportunidade de ser livre, alce o vôo dos verdadeiros filhos de Deus. Ouse ir além do que você um dia poderia imaginar: ir além da dor, além do medo, além da razão, além de você mesmo. Viva a verdadeira felicidade e paz que somente aqueles que estão unidos à Verdade absoluta, ao Amor eterno são capazes de viver.

Seja livre para viver o Projeto de Deus para você: o Céu! Deus o abençoe e o conduza nesta caminhada rumo ao Céu.

(Comunidade Católica Shalom – http://www.comshalom.org)

A oração é o caminho para vitória

Precisamos acreditar no auxílio eficaz do Espírito Santo na nossa vida. Quando passamos por dificuldades, a primeira coisa que fazemos é contar para as pessoas; ficamos angustiados, muitas vezes, murmuramos e nos aterrorizamos, esquecendo-nos de buscar o nosso socorro no Senhor, que combate por nós e que está sempre ao nosso lado, mesmo quando não nos apercebemos da presença d’Ele.

Durante a caminhada do povo de Israel no deserto, foram muitas as provas, mas o Senhor caminhava com ele, assim como caminha conosco no presente.

“Moisés disse ao povo: Não temais! Permanecei firmes, e vereis o que o Senhor fará hoje para vos salvar; os egípcios que hoje estais vendo, nunca mais os tornareis a ver. O Senhor combaterá por vós, e vós, ficai tranqüilos” (Êxodo 14,13-14).

Na situação em que nos encontramos, hoje, confiemos no Senhor, porque Ele combaterá por nós e a vitória será certa. O segredo está em confiar, mesmo sem ver nada.

(Canção Nova ;D Luzia Santiago – Formação)

Discípulos aos pés da cruz

Em que estamos gastando a nossa vida, nosso tempo, os nossos talentos, o que estamos fazendo da nossa vida? Vamos pegar a Bíblia no Evangelho de Marcos, 8: “Chamou, então, a multidão, juntamente com os discípulos, e disse-lhes: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me! Pois quem quiser salvar sua vida a perderá; mas quem perder sua vida por causa de mim e do Evangelho, a salvará” (Mc 8, 34-35).

Jesus aqui neste Evangelho, traz três características de um discípulo: primeiro renunciar-se a si mesmo, depois tomar a sua cruz e por fim segui-Lo, caminhar, dar passos. Jesus faz um chamado muito diferente para a multidão e para os discípulos. Para a multidão Jesus oferece muitas coisas, Ele diz: ‘venha e eu vos aliviarei, coloquem seus fardos sobre mim e eu vos aliviarei, os que tiverem fome, venham e eu vos darei pão.’ Para os discípulos, Jesus diz somente assim: ‘quer me seguir? Tome sua cruz e vem atrás de mim.’ Então eu te pergunto: em que faze da caminhada você está? Você já é um discípulo, ou ainda é multidão?

Nós somos chamados a ser discípulos; o Papa Bento XVI reforçou esta palavra quando esteve no Brasil, no última Conferência dos Bispos da América Latina, que todos devemos ser discípulos e missionários, e se você não for um discípulo e missionário, na vai aguentar caminhar na Igreja. Muitos entram numa caminhada de fé, mas na hora do caminho da cruz, do sofrimento vão embora, abandonam o mestre, a multidão vai embora na hora do ‘aperto’, a mesma multidão que gritou “Hosana, hosana ao Filho de Davi”, é a mesma que grita “crucifica-o”, por isso o discípulo é chamado a permanecer aos pés da cruz, quando todos o abandonaram, e ainda alguém gritou: “…Se és o Filho de Deus, desce da cruz!” (Mt 27,40), mas naquele momento não era hora de milagres, mas momento de dor e de sofrimento.

Tem muitos que no momento da dor, da provação, vão embora e começam a dizer: ‘Deus esqueceu de mim, Deus me abandonou’. Isto é coração e sentimento de multidão, que está olhando para si mesma, só para suas necessidades. Tem muita gente com sentimentos de multidão e diz assim na hora do sofrimento: ‘se Deus me amasse, Ele me dava esta cura; se Deus me amasse, Ele não deixava eu passar por isso; se Deus me amasse, eu não sofria tanto’. Mas, quem sabe isto não seja uma grande prova do amor de Deus, para que você aprenda a crescer, a amadurecer, e a ser muito mais do que você foi até hoje.

Muitos de nós estamos procurando a cura do que sentimos, do nosso físico, e não procuramos a cura do causou o que sentimos, mas nós não somos só corpo, e muitas das coisas que sentimos são causadas pelo ressentimento, pela mágoa, pela falta de perdão e então precisamos aprender a pedir a graça da cura pelas causas certas. Mas também é necessário entender e aceitar o sofrimento, e carregar a cruz, isto é discipulado, isto é amadurecer.

Jesus escolheu três discípulos para passar com Ele a noite da angústia, da escuridão no horto das oliveiras, Jesus escolheu os que Ele acreditou serem os mais fiéis, mas os discípulos dormiram. E você vai dormir também, na hora que Jesus precisar?

A multidão só pensa em si mesma, foi assim quando Jesus estava lá no monte falando das Bem-aventuranças. Só pensavam em si, pois estavam com fome e foram falar com Jesus. A multidão sempre quer alguma coisa, nunca está satisfeita, 12 verdadeiros discípulos mudaram o mundo, e nós hoje, milhões de católicos, não conseguimos mudar o mundo.

A multidão está atrás de pão e peixe, pois sempre está com fome, o discípulo é pescador, e está sempre procurando a quem pescar, a quem evangelizar.
A multidão está sempre querendo crescer, o discípulo está preocupado em multiplicar.
A multidão está sempre procurando atenção, o discípulo está sempre determinado a servir a Deus, independentemente das pessoas.
A multidão quer elogios, o discípulo quer o sacrifício.

A nossa caminhada não é uma caminhada humana, é uma caminhada de fé, se Deus me chama: ‘aqui estou’, não estou pronto, não tenho todos os talentos, mas se Deus me chama: ‘aqui estou’.

A multidão vê as circunstâncias, o discípulo tem o olhar no céu, porque se estivermos com o olhar na terra e tirarmos o olhar do Senhor vamos nos desesperar e ficar sufocados. Não olhe as circunstâncias, olhe o Senhor. Precisamos aprender a sofrer, e pedir a Deus esta graça e abraçar a cruz como um verdadeiro discípulo. Não elimine os seus problemas pois eles vão te fazer mais forte. A TV secular nos ensina a eliminar as pessoas que nos dão problema, mas no Reino de Deus não é assim, o Reino de Deus é misericórdia. As circunstâncias que nos rodeiam são muito difíceis, mas o discípulo não fica olhando as circunstâncias, mas confia que Deus fará o melhor para ele.

O discípulo é aquele que está aos pés da cruz na hora do sofrimento, que acolhe Nossa Senhora, e é fiel até o fim. Deixe de olhar para as coisas, deixe de olhar para si mesmo e olhe para o Senhor.

(Canção Nova ;D Assis Rocha, Missionário da Comunidade Obra de Maria)