Tomar o caminho do silêncio


Frei Patrício Sciadini, OCD

Ao meu redor tudo é silêncio. Fechei a porta, as janelas do meu quarto. Só de vez em quando chega o som estridente de uma buzina. O grito sofrido de quem passeia na rua. É silêncio fora e dentro de mim; percebo a voz da caneta que corre veloz no papel que, silenciosamente acolhe as idéias que sobem do coração e se fixam na docilidade do branco papel que um dia foi árvore. Houve um tempo que o silêncio preenchia outros vazios e que era doce permanecer em silêncio, tentando escutar a voz do Outro que, do silêncio, chegava até mim.

Amava o silêncio como terra aberta e fecunda na espera de semente de vida. Era no silêncio que ia ruminando, mastigando a Palavra de Deus encontrada, devorada, que em mim se transformava em doce sabor de eternidade.

Houve um tempo em que me sentia agredido pelo silêncio, precisava – como um dependente – da minha dose diária de barulho, de busca de amigos imaginários, para preencher o terrível vazio do nada. Era a noite da fé em que, como por encanto maléfico, chegavam de longe as vozes sedutoras do mundo: luzes, vozes, sugestões, fantasmas e imaginações que tentam despertar os instintos da besta adormecida dentro de nós. Um silêncio terrível, ameaçádor que provoca fuga de si mesmo na busca de outros lugares e outras pessoas.

O novo silêncio

Passada a tempestade, silenciados os trovões da soberba e da cobiça, surgiu um novo silêncio. O desejo forte, corajoso de tomar o caminho do silêncio para se reencontrar com a própria identidade que estava submersa na poeira do tempo e do descaso.

O novo silêncio é sede de infinito que as coisas não podem apagar e saciar. É deixar-se envolver pelo manto do amor misericordioso do Pai que nos abraça “cobrindo-nos de beijos”.

O novo silêncio é paz que não pode ser perturbada pelas incompreensões e pelas pequenas ou grandes rejeições. É a tranqüilidade do último lugar, assumido com a consciência de que nunca nos será tirado. É preciso voltar ao silêncio como deserto e lugar fecundo. Como oásis de paz e de amores com o Amado.

É o novo silêncio das potências e dos desejos que depois de ter-se cansado de tanto andar vagueando, repousa no colo reclinado do Amado. É o silêncio que as palavras não podem definir, mas que o coração entende e nele se delicia num gozo sem fim.

É o novo silêncio que é possível saborear na rodoviária, no trânsito caótico de São Paulo, ou no silêncio do deserto ou das montanhas. O silêncio está dentro de nós. É aí, bem no fundo do coração que é preciso reaprender a escutar a Deus que nos fala – um Deus Palavra eterna de Amor –. É o momento de tomar o caminho do silêncio onde se ouvem as batidas do coração e as palpitações da voz do Amado que nos chama ao deserto.

O medo do silêncio não é outra coisa que o medo de si mesmo, de se olhar no espelho da própria consciência, de reconhecer a própria identidade fragmentada. O silêncio é encontro amoroso com Deus que vai curando as nossas feridas, injetando em nós vida nova. Encontrar-se com o Senhor na sarça ardente e deixar-se queimar totalmente depois de ter tirado as sandálias do egoísmo e das seguranças humanas.

O novo silêncio será o terreno fecundo de onde surgirão os novos místicos e contemplativos capazes de ser silêncio – palavra num mundo doente de um barulho desintegrador –. No silêncio, está a nossa esperança e fortaleza.

Nunca se vai ao silêncio para estar só, mas para apresentar na oração toda a humanidade. É o amor que exige o silêncio diante de um Deus que, no amor, conhece as profundidades do nosso ser.

O novo silêncio não pode ser fim, nem fuga, nem incapacidade de convivência ou de diálogo, é necessidade de aprender a escutar para saber ouvir melhor o grito do homem e da mulher oprimidos.

Há gritos e choros que só se entendem no silêncio; há vida que nasce, que só se percebe no silêncio; há amor que só pode ser vivido no silêncio.
Reaprender a viver o silêncio e no silêncio é o caminho novo da convivência pacífica e da não violência.

Toma o caminho do silêncio! Torna-te silêncio e saberás melhor comunicar as sublimes lições do Infinito que se perdem quando tentamos explicá-las. Deus é silêncio, por isso é Amor que rompe o seu silêncio na encarnação. Jesus é silêncio que só fala aos que se fazem silêncio para ouvi-lo.

(Comunidade Católica Shalom – http://www.comshalom.org)

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